11/06/2013 06:58 - Valor Econômico
Renato Almada na ponte
Cidade Universitária: "É preferível caminhar 8,5 km do que depender de
transporte motorizado"
O auxiliar administrativo Renato Almada tem carro, ponto de
ônibus quase na porta do prédio onde mora e estações de trem e metrô coladas ao
escritório onde trabalha. Mas prefere usar as próprias pernas para percorrer os
8,5 quilômetros na volta para casa todos os dias. Muitos podem estranhar a
opção, mas a maioria há de concordar com os motivos que a sustentam. Não é
fácil, depois de um dia inteiro de trabalho, ficar preso no trânsito, seja
dentro de um carro ou a bordo de um ônibus. Além disso, o tempo que ele
gastaria à espera de transporte coletivo é suficiente para chegar à metade do
caminho se for a pé.
Almada parece decidido a fazer de um bom par de tênis seu
principal investimento em transporte independentemente do que aparecer à sua
frente. Apesar dos percalços que surgem durante sua caminhada diária, concluída
em uma hora e meia em passos quase ligeiros, para ele, nada é pior do que ter
de enfrentar o caótico transporte motorizado. Bicicleta poderia ser uma opção.
Mas ele não tem onde guardá-la no prédio onde mora.
Almada não tem certeza de quantos quilômetros anda. Segundo
o Google Maps, são 8,5. De manhã, ao sair de casa, aceita pegar o ônibus. Mas
acorda mais cedo para evitar o tumulto nos coletivos e nas ruas. E chega ao
escritório bem antes de o expediente começar. O percurso da volta a pé não é de
todo ruim. A primeira parte é leve. Ele sai do escritório, na avenida Nações
Unidas, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, e corta caminho por ruas planas,
tranquilas e arborizadas. Mas, logo depois, tem de atravessar a ponte Cidade
Universitária, muito mais conhecida por motoristas de que por pedestres.

Depois, o trajeto por ruas da USP, dentro da Cidade
Universitária, devolvem tranquilidade à caminhada. Na sequência, porém, vem uma
etapa pesada para o andarilho, que carrega apenas mochila com garrafa de água e
guarda-chuva. Ao entrar no Jaguaré, bairro onde mora, ele enfrenta longas
avenidas, com fluxo intenso de veículos e travessia de pedestres complicada.
Mas somente quando alcança ruas vizinhas ao prédio onde mora ele começa a se
queixar. A caminhada fica complicada porque as calçadas estão cheias de
degraus.
Vias inclinadas, que transformaram o passeio público em uma
sucessão de rampas para facilitar a entrada dos carros nas garagens é um dos
muitos pontos que a Prefeitura de São Paulo pretende atacar por meio da Lei das
Calçadas, sancionada em 2012. A prefeitura promete rigor. Mas vai notificar o
infrator que não seguir as normas antes de multá-lo. Há várias mudanças em
relação a leis anteriores. A faixa livre da calçada, por exemplo, aumentou para
1,20 metro.
São Paulo convive com leis referentes às calçadas desde
1923, quando começou a se tratar da padronização do assentamento dos trilhos
para bondes. Entre as discussões mais polêmicas, duas vezes - em 1988 e 1996 -
a administração municipal tentou pôr ordem na colocação de mesas e cadeiras no
passeio público que faz fronteira com bares e restaurantes.
A nova lei é clara quando determina que a responsabilidade
pela construção, padronização e conservação da calçada é do morador do imóvel
limítrofe. Ao poder público cabe adequar as calçadas das vias estruturais, que
são as grandes avenidas, de tráfego intenso, segundo o diretor da Secretaria de
Desenvolvimento e Urbanismo, Gustavo Partezani Rodrigues.
O arquiteto paisagista Benedito Abbud defende que toda
calçada deveria ser um tema de competência do poder público. Ele questiona se
as subprefeituras estão preparadas com profissionais habilitados para lidar com
a demanda que surgirá quando moradores de casas onde as calçadas estão fora do
novo padrão pedirem orientação. "Assim como o leito carroçal é uma competência
do poder público, a calçada também deveria ser", diz. Abbud também prevê
dificuldades para adequar a legislação em áreas onde postes e árvores já estão
no meio do passeio.
Para a arquiteta e pesquisadora de transporte não
motorizado, Maria Ermelina Brosch Malatesta, atribuir a cada morador a
responsabilidade de cuidar de seu pedaço de calçada é como imaginar que cada um
também cuidasse do pedaço de rua ou avenida na frente da casa. "Imagine a
bagunça", diz.
Para Partezani, só com a mudança de hábitos de cidadania os
passeios públicos serão organizados. "Cabe a cada cidadão reclamar com o
vizinho ou denunciar irregularidades", afirma. "Não vai adiantar
colocarmos um batalhão para fiscalizar", diz. O diretor lembra que andar é
um exercício que os cidadãos de centros como São Paulo realizavam no passado.
"O problema é que o foco se voltou para o automóvel e, assim, começou
apenas a se pensar em construir avenidas, pontes e túneis", destaca.
"Mas chegou a hora de pensar no pedestre, imaginar que no caminho ele
precisa contar com áreas verdes para minimizar o calor, lixeiras para jogar o
papel do chocolate, um banco para o idoso poder sentar..."
Com calçadas menos hostis ao pedestre é provável que Almada,
o andarilho do Jaguaré, encontrasse em seu trajeto para casa mais pessoas
usando as próprias pernas como meio de transporte. Entre os que passam por ele,
a maioria está dentro de um carro ou de um ônibus. Como o fim de seu expediente
coincide com o fim das tardes, horário preferido também pelos esportistas, é
mais fácil ele encontrar como companheiros de caminhada gente que corre ou anda
apenas para se exercitar.
Apesar de a concentração de pedestres ser nítida em
determinadas regiões, como o centro da cidade ou em áreas de acesso a
transportes públicos, como estações de metrô, a participação do andar a pé como
meio de transporte manteve-se inalterada segundo as últimas pesquisas.
Organizada pelo Metrô de São Paulo, a cada dez anos, a pesquisa Origem e
Destino não mostra alterações entre as edições de 1997 e 2007.
Em 1997, 34,39% dos deslocamentos na região metropolitana de
São Paulo eram feitos a pé. Em 2007, 33,13% responderam que vão a pé até o
trabalho ou escola. Segundo os parâmetros da pesquisa, viagem a pé é aquela
realizada de fato a pé da origem ao destino. Ou seja, não se complementa com
nenhum outro modo de transporte.
Para a pesquisadora Ermelina Malatesta, apesar de a
população dos centros urbanos ter aumentado, faltam estímulos para caminhar.
"Para atrair o pedestre, o caminho tem que ser agradável. Mas no Brasil o
espaço público tem sido deformado", destaca Ermelina, autora da tese de
doutorado "Andar a Pé, um Modo de Transporte para a Cidade de São
Paulo".
Além dos problemas com as calçadas, a pesquisadora aponta
outros fatores que levaram os centros urbanos a se transformar em locais bem
mais atraentes para o automóvel. O tempo de semáforo é um deles. Não é difícil
para qualquer um perceber como, na maioria das vezes, a programação dos
semáforos é mais favorável ao fluxo do trânsito. "A intenção pode até ser
a de evitar congestionamentos; mas de que adianta se as cidades já estão
paradas?", pergunta Ermelina.
Apesar de ser considerado natural que em vias importantes os
semáforos sejam programados para facilitar o fluxo dos veículos, o pedestre
aprendeu também a conviver com certos exageros. No cruzamento da avenida
Paulista com a alameda Casa Branca, por exemplo, o semáforo fica vermelho para
o pedestre durante dois minutos e 12 segundos. Mas o verde dura só oito
segundos. É por isso que, em casos assim, o que determina o momento de
atravessar a rua não é o equipamento de trânsito, mas a oportunidade de
aproveitar uma brecha e correr entre um carro e outro.
Em alguns casos, caminhar longos trechos é também a maneira
de gastar menos com condução. Angelita Cabral de Oliveira sai de casa às 3h40,
no Embu, para pegar o ônibus na divisa, já em São Paulo. Dessa forma, ela
economiza uma passagem. Mas, como tem medo de andar sozinha, arrumou uma turma
de vizinhos que segue na mesma direção no mesmo horário. O grupo, de cinco
pessoas, leva em torno de 12 minutos para percorrer dois quilômetros.
Gustavo Partezani, da Secretaria de Desenvolvimento e
Urbanismo de São Paulo, garante que o pedestre não será mais "visto como
um detalhe" na rede de transportes do município. Segundo ele, todos os
corredores de ônibus em construção ou reformados contarão também com passeios
públicos apropriados.
Talvez assim comece a se evitar que pedestres sejam
confundidos com equilibristas em determinados trechos. Para quem desce do
ônibus no corredor da rua da Consolação, só chega até a faixa de pedestres
aquele que consegue manter o equilíbrio no meio do estreito canteiro de
plantas.
Segundo Partezani, nas próximas reformas de corredores serão
abertos espaços para pedestres mesmo que isso implique em reduzir a via por
onde passam os carros. A administração pública estaria disposta, então, a
enfrentar essa polêmica com o usuário de automóvel? "É o jeito. A cidade
está parada", diz.