07/05/2014 08:45 - Folha de SP
Uma das primeiras promessas de campanha cumpridas pela
gestão Fernando Haddad (PT), o Bilhete Único Mensal é pouco usado por quem anda
de transporte coletivo em São Paulo.
O cartão, que permite uso livre de ônibus, metrô ou trem por
um mês a um preço fixo, começou em novembro. Em abril, ele foi usado por quase
33 mil passageiros, mostra balanço obtido pela Folha via Lei de Acesso à
Informação e complementado pela SPTrans.
Isso representa 4% do que a prefeitura estimava atingir.
Em novembro, Haddad disse que 862 mil usuários já gastavam
mais comprando bilhetes individuais do que as tarifas mensais e que esse seria
o público-alvo do programa.
À época, o prefeito enfatizou ainda que o cálculo era
"conservador", pois não incluía, por exemplo, quem deixava de fazer
mais viagens por falta de dinheiro.
Agora, a prefeitura diz que ainda é cedo para avaliar.
O crédito mensal custa R$ 140 para uso só de ônibus ou só
metrô/trem e R$ 230 para o uso integrado. Estudantes pagam R$ 70 (ônibus ou
trilhos) e R$ 140 (integrado).
Dessa forma, o modo mensal compensa para quem faz mais de 46
viagens/mês usando um único meio ou 49 integradas. Quem só vai e volta do
trabalho, por exemplo, geralmente faz 44 viagens/mês.
PÚBLICO GERAL
Se o cartão mensal atingiu pequena parte do público-alvo,
seu uso em relação ao total de usuários do Bilhete Único tradicional --que
permite viagens integradas num período de até três horas-- é ainda menor: 1%.
Esses passageiros somam cerca de 5 milhões.
Apesar de ainda restrito a uma pequena parcela, a adesão ao
programa vem crescendo. Desde janeiro, o aumento de usuários foi de 275%.
A modalidade semanal, que faz parte da meta de Haddad e
começou em 5 de abril, foi comprada 1.617 vezes no mês. A tarifa é de R$ 38
(ônibus ou trilhos) ou R$ 60 (integrada).
PREÇO
O baixo interesse pelo cartão mensal pode ser explicado pelo
preço. Em metrópoles com programas semelhantes, as tarifas são mais vantajosas
--em Londres, por exemplo, elas compensam para quem faz a partir de 25
viagens/mês.
Segundo passageiros ouvidos pela Folha, outro empecilho
financeiro, principalmente para trabalhadores informais, é ter que fazer o
pagamento de uma só vez em vez de comprar a cada viagem.
Também há dificuldade para trabalhadores do mercado formal,
que recebem vale-transporte. Como o benefício é pago pelo empregador, é ele
quem precisa decidir se adere ou não à tarifa mensal.
Dos bilhetes mensais de abril, só 3% foram do tipo
vale-transporte. A estimativa da prefeitura era que atingissem 63% dos usuários
mensais.
No lançamento do programa, Haddad e o governador Geraldo
Alckmin (PSDB) disseram que contavam com a adesão das empresas --e da pressão
de sindicatos para reivindicar o benefício.
"Vai ser um sucesso no caso do vale-transporte. De uma
parte, não vai custar nada ao empregador e ele vai estar dando um benefício. De
outra, os sindicatos vão pressionar para que empregadores comprem", disse
Alckmin, ao formalizar a adesão do Estado.
"Você vai se surpreender com a adesão. Posso
garantir", afirmou Haddad.
Parte dos usuários também reclama do procedimento para obter
o cartão e pela recarga do crédito mensal não estar disponível em todas as
máquinas de atendimento.
Para ter o cartão, é necessário preencher cadastro pela
internet, com foto, esperar aviso por e-mail e ir buscá-lo em um posto da
SPTrans.
Quantidade não
preocupa, diz secretário
O secretário de Transportes da gestão Fernando Haddad (PT),
Jilmar Tatto, afirma que ainda é cedo para fazer qualquer avaliação sobre a
utilização do Bilhete Único Mensal em São Paulo.
"Não estamos preocupados com quantidade", disse o
secretário.
"Nossa preocupação é colocar à disposição. O uso
depende de cada um. É um serviço novo à disposição dos usuários, que com o
tempo vão aderindo."
Por meio de nota, a SPTrans, empresa municipal que gerencia
o bilhete, afirma que "a adesão a uma nova forma de pagamento não é feita
de imediato pelos usuários" e que mantém a expectativa de que o número de
adeptos continue crescendo nos próximos meses.
"Antes de optar pela mudança para as cotas mensais, os
passageiros procuram se informar pelos canais de informação oficiais, fazem
contas pessoais, comparam os benefícios, conversam com usuários que já
experimentaram para, então, tomar a decisão de aderir ao bilhete mensal",
diz a empresa.
VALE-TRANSPORTE
Representantes do setor patronal, responsável pela compra do
vale-transporte, afirmam que nem os próprios trabalhadores estão reivindicando
o novo cartão mensal a seus empregadores.
Para eles, o programa ainda é pouco conhecido e outras
prioridades dos empregados estão em discussão.
O secretário Jilmar Tatto, no entanto, afirma que há a
expectativa de que os sindicatos comecem a colocar o bilhete mensal na pauta de
reivindicações dos trabalhadores, para que ele se torne um benefício
permanente, a exemplo do vale-refeição e do plano de saúde.
"Já falei com o Sindicato dos Bancários de São Paulo e
com o presidente nacional da CUT [Central Única dos Trabalhadores] e eles
ficaram de estudar o caso", disse.