19/05/2015 07:18 - O Estado de SP
Leia: Perueiro
foi morto após questionar novo contrato de transporte - O Estado de SP
Morte
e agressão paralisam apuração sobre lotações; PCC estaria envolvido - O Estado
de SP
Desde 2003, quando o sistema de transporte público de São
Paulo foi reestruturado, os antigos perueiros se transformaram em membros de
cooperativas de ônibus e, já no mesmo ano, surgiram os primeiros indícios de
ligação entre as cooperativas e a organização Primeiro Comando da Capital
(PCC). Naquele ano, um coordenador de cooperativa foi preso, depois de grampos
telefônicos apontarem sua ligação com o tráfico de drogas. Mas a mistura entre
crime organizado e transporte público estava longe do fim.
MORTE DE DONOS DE LINHAS
Três pessoas foram mortas em junho de 2005 durante o que
foi, para a polícia, uma disputa pelo controle da linha Santo Amaro/Jardim
Luso. As vítimas foram os coordenadores da linha, Roberto Carlos Santos Campos,
de 38 anos, e André Jacinto dos Santos, de 26, além do perueiro Marcos
Rodrigues de Oliveira, de 27. Foi um crime premeditado. Eles foram sequestrados
em pontos diferentes da cidade e levados para uma casa na Favela Ingaí, região
do Jardim Miriam, zona sul.
FRAUDE NO BILHETE ÚNICO
Uma ação do Departamento Estadual de Investigações Criminais
(Deic) e da São Paulo Transporte (SPTrans) descobriu, em março de 2006, um
golpe para fraudar o bilhete único, o chamado "golpe da coruja". Bilhetes
únicos eram validados em ônibus parados, criando um faturamento indevido a
veículos da extinta Cooperativa Aliança Paulista. O esquema servia para lavar
dinheiro para a facção, segundo a polícia.
REUNIÃO COM POLÍTICO
Durante uma investigação da Polícia Civil, em março de 2014,
grampos indicaram que integrantes do PCC se reuniriam com líderes perueiros. A
investigação apurava ataques contra ônibus da cidade - as lotações eram sempre
poupadas. Quarenta e duas pessoas foram averiguadas. Entre os flagrados no
encontro, estava o então deputado estadual Luiz Moura, na época do PT. Da
corrente PTLM (PT de Luta de Massas), a mesma do secretário de Transportes
Jilmar Tatto, Moura terminou expulso do partido. Ele e seu irmão, o vereador
Senival Moura, tinham nos perueiros sua principal base política.
LAVAGEM DE DINHEIRO
Em outubro de 2014, 11 anos depois do surgimento dos
primeiros indícios de que o PCC usa as lotações para lavar dinheiro, as
primeiras duas pessoas suspeitas de operar esse crime foram denunciadas pelo
MP. Eram Geralda Jorge da Silva e Marcos Paulo Vidal de Castro. "Os
valores originários do tráfico foram dissimulados por meio de investimentos
feitos em vans, que circulavam em linhas da Coopertranse no transporte coletivo
alternativo, especificamente na linha da Vila Ema (zona leste de São
Paulo)", diz a denúncia. A Coopertranse não opera mais
CARTA DOS LÍDERES
No mesmo ano de 2014, foi divulgada uma carta entre dois dos
líderes máximos da facção criminosa: Roberto Soriano, o Tiriça, e Daniel Vinicius
Canônico, o Cego. Eles negociavam a transferência de uma lotação de um para o
outro. A carta foi escrita por Tiriça. Ele dizia ser necessário
"acelerar" pessoas na São Paulo Transporte (SPTrans) e nas
cooperativas para facilitar a transação.
INVESTIGAÇÃO PARADA
Em maio de 2015, o assassinato de uma testemunha e o
espancamento de outra paralisaram a investigação da Promotoria de Justiça de
Defesa do Patrimônio Público e Social da capital - braço do Ministério Público
encarregado de investigações não criminais - sobre a transformação das
cooperativas em empresas de ônibus, por meio de fraude. O objetivo da mudança
seria permitir que elas participem da disputa por uma licitação planejada pelo
prefeito Fernando Haddad (PT) para o transporte.
Perueiros de SP
relatam ameaças de novas empresas de lotação
Crimes são investigados em sigilo pelo Ministério Público Estadual
Membros das antigas cooperativas de lotações de São Paulo
relatam rotinas de extorsão e ameaças praticadas pelos diretores das novas
empresas de transporte de São Paulo. Os casos vão desde falta de pagamento a
pressões para que as lotações sejam vendidas para as empresas.
Os crimes são investigados em sigilo pelo Ministério Público
Estadual (MPE). A instituição tem ainda um inquérito civil aberto para apurar
improbidade de membros da Prefeitura no caso. Entretanto, conforme o Estado
noticiou na semana passada, essa apuração foi paralisada depois da morte do perueiro
Sergio da Conceição Nobre Oliveira, ocorrida em fevereiro, na zona leste, e do
espancamento de outra testemunha, agora protegida.
As acusações ocorrem às vésperas de a Prefeitura lançar uma
licitação estimada em R$ 120 bilhões, em 20 anos, para conceder o transporte
público a novos empresários. O edital deve ser publicado ainda neste mês.
Segundo informações do Grupo de Atuação Especial de Combate
ao Crime Organizado (Gaeco), uma testemunha protegida disse que a empresa
Allianz, antiga Cooperativa Paulistana, a mesma onde trabalhava o perueiro
Oliveira, foi formada para fazer um contrato emergencial com a Prefeitura e
"obter atestado de capacidade técnica e participar da licitação a ser
realizada futuramente pela municipalidade para contratar prestadores de serviço
de transporte".
Perueiros das zonas sul, leste e oeste, que pediram para não
serem identificados, contam que a mudança de natureza das associações - de
cooperativa para empresa - foi tomada à revelia dos sócios. A situação não
teria ocorrido apenas na Allianz.
Achaques."Todo mundo questionou essa mudança. Ninguém concordou. Sabe o que aconteceu?
Eles (diretores) perguntaram se a
gente queria discutir isso e ligaram para a cadeia, no viva voz", disse um
perueiro ouvido pela reportagem. "Quem vai questionar esses caras?",
afirmou, referindo-se supostamente à facção PCC.
Na prática, a mudança fez com que cooperados virassem
empregados dos diretores, que os ameaçavam diante de contestações. "A
SPTrans paga R$ 2,10 por passageiro transportado. O pagamento é feito para a
cooperativa, que fica com uma parte, e repassa o resto. Mas, agora, estão ficando
com quase tudo. Meu repasse foi para R$ 1,08. Mal dá para pagar o motorista e
abastecer o carro", contou outro perueiro. Antes da mudança, o repasse
ficava em cerca de R$ 1,70, diz ele.
Além de ficar com parte do dinheiro, os empresários teriam
passado a pressionar perueiros a entregar seus veículos. "Pago uma
prestação de R$ 3.600 do meu carro à cooperativa, que fez a compra. Eles
começaram a cobrar R$ 4 mil, até mais. Eu disse que assim não dava. Então
falaram que, se eu não estava aguentando, devia vender meu carro para
eles", contou outro perueiro.
A investigação paralisada do MPE chegou a ouvir cinco
depoimentos semelhantes antes de o medo afastar novas testemunhas. Elas
contaram casos parecidos. A promotora pública Karyna Mori, que ouviu essas pessoas,
acompanha agora a publicação do edital que vai escolher as novas empresas. A
investigação criminal, do Gaeco, segue em sigilo.
Diretor de empresas
nega problemas à polícia
A reportagem procurou o advogado Anderson Barbosa da Silva,
de 44 anos, presidente da Allianz, para comentar as informações presentes no
inquérito do Ministério Público Estadual (MPE), mas ele não retornou as
ligações.
Silva dirige a empresa citada no depoimento feito ao Grupo
de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) sobre o caso. É
também a mesma empresa onde trabalhava o perueiro Sérgio da Conceição Nobre de
Oliveira, morto em fevereiro supostamente por se queixar das mudanças no
sistema de transporte.
À Polícia Civil, segundo depoimento a que o Estado teve
acesso, ocorrido em 10 de abril, o advogado disse que a antiga cooperativa
"estava revendo contratos das prestadoras de serviços e afins, visando
regularizar todas as situações em desacordo com a São Paulo Transporte
(SPTrans). Por causa disso, alguns contratos de parceria foram cancelados,
outros alterados", disse. O advogado disse que conhecia a vítima só de
vista, mas afirmou que ela era "polêmica".
Na quinta-feira, em entrevista ao Estado, o secretário
municipal de Transportes, Jilmar Tatto, afirmou que a contratação da empresa no
lugar das cooperativas que já operavam na cidade ocorreu a pedido das próprias
empresas, que queriam se modernizar. A solicitação teria ido ao encontro de
reivindicações que já haviam sido feitas pelo Ministério Público e de recomendação
feita pela empresa de auditoria Ernst & Young, que analisou as contas do
sistema de transporte.