13/08/2013 08:42 - Folha de SP / O Estado de SP / O Globo
Por questões políticas e técnicas, o governo Dilma adiou
ontem pela terceira vez, sem nova data definida, a licitação para a concessão
ao setor privado do trem-bala ligando São Paulo ao Rio.
Classificado como prioritário pela presidente, o leilão
virou um projeto para um eventual segundo mandato.
Segundo a Folha apurou, o governo considerou que o momento
político, com a proximidade da eleição presidencial de 2014, não é favorável à
licitação do TAV (trem de alta velocidade) e decidiu adiá-lo por ao menos um
ano.
O projeto (orçado em R$ 35,5 bilhões e em até R$ 55 bilhões
pelo mercado) poderia ser usado como munição pela oposição num momento que manifestantes
pedem investimentos em metrô. O governo diz que há recurso para fazer o TAV,
trens e metrôs.
Oficialmente, o discurso do Planalto é que a decisão foi
tomada porque dois consórcios --espanhol e alemão-- solicitaram o adiamento. Só
os franceses iriam participar da disputa, e a presidente não queria uma
licitação com apenas um competidor.
A concorrência que definiria o fornecedor dos equipamentos e
do operador da concessão estava marcada para a próxima sexta-feira.
Tecnicamente, diante dos pedidos de postergação, a decisão
era pelo adiamento. Assessores presidenciais dizem, porém, que seria possível
realizar a concorrência no fim deste ano ou no início de 2014.
Ao anunciar o adiamento do leilão, o ministro Cesar Borges
(Transportes) disse que a presidente recomendou "não parar o
projeto". Outras etapas continuarão em andamento, como a contratação dos
projetos executivos (de construção da linha). A previsão de concluir o
trem-bala em 2020 foi mantida.
Questionado se o processo eleitoral poderia postergar ainda
mais a data, Borges disse que era possível, mas que não há restrição na lei
eleitoral para fazer a concorrência.
"Em qualquer país do mundo com trem de alta velocidade,
o processo é complexo e nunca foi rápido."
Na primeira tentativa de leiloar o trem-bala, em 2010, o
governo fez dois adiamentos do prazo de entrega de propostas para dar tempos às
companhias para formar grupos para a concorrência.
Um dos adiamentos levou à desistência do grupo sul-coreano.
O prazo concedido na época de pouco adiantou: o leilão de julho de 2011 acabou
sem interessados.
A decisão de ontem deixou o consórcio francês bastante
decepcionado. Questionado se isso poderia tirá-los da próxima concorrência, o
ministro disse esperar que não.
CARTEL
O ministro buscou desvincular a decisão da investigação
sobre um suposto cartel nos metrôs de São Paulo e do Distrito Federal. "Eu
diria que [as denúncias] não foram fundamentais."
Já o presidente da EPL, Bernardo Figueiredo, afirmou que as
informações sobre a formação de cartel das empresas interessadas contribuíram
para o adiamento.
"Mas o fundamental foi ter apenas um participante", reiterou o ministro.
O Estado de SP
Risco de não haver disputa faz governo adiar
novamente o leilão do trem-bala
Leilão do TAV só tinha um pretendente
Marcado para 19 de setembro,
licitação do Trem de Alta Velocidade entre Campinas, São Paulo e Rio receberia
as propostas nesta semana, mas apenas um consórcio iria participar; diante
disso, a presidente Dilma decidiu adiar o evento por tempo indeterminado
Consórcio liderado pela francesa
Alstom era o único comprometido; prazo foi adiado a pedido da Siemens e de um
consórcio espanhol
Maior projeto de infraestrutura do governo da presidente
Dilma Rousseff, o Trem de Alta Velocidade (TAV) foi adiado novamente. Desta
vez, por tempo indeterminado. Sem atrair o interesse de investidores
internacionais, o leilão que iria definir a tecnologia e a operadora do
trem-bala corria risco de não ter disputa. Apenas um consórcio, liderado pela
francesa Alstom, havia se comprometido a participar da licitação. Dilma tomou a
decisão no domingo.
"Depois de muitas conversas e entendimentos com os
prováveis participantes, sentimos que o certame caminhava para apenas um
participante", admitiu o ministro dos Transportes, César Borges.
O consórcio espanhol, liderado pelas empresas Renfe e Talgo,
pediu pelo menos 60 dias para apresentar uma proposta. A alemã Siemens
solicitou mais um ano. Para não privilegiar nenhuma delas, o governo decidiu
alongar o prazo, mesmo sob risco de desistência dos franceses.
O leilão do trem que vai ligar as cidades de Campinas, São
Paulo e Rio estava marcado para 19 de setembro. A entrega de propostas iria
ocorrer nesta semana, no dia 16. Venceria quem oferecesse o maior valor de
outorga à União.
Borges evitou se comprometer com nova data. Disse apenas que
a licitação deve ocorrer daqui a "pelo menos um ano". "Não vamos
determinar prazo. Não vamos fixar novas datas."
Eleições. Embora
não envolva o desembolso de recursos públicos, dificilmente o leilão poderia
ocorrer às vésperas das eleições presidenciais, reconheceu o presidente da
Empresa de Planejamento e Logística (EPL), Bernardo Figueiredo. "Isso é
algo que também terá de ser avaliado", afirmou.
O ministro disse que os consórcios interessados atualmente
garantiram que vão disputar o projeto daqui a um ano. Admitiu, no entanto, que
não há nada que os obrigue. Figueiredo reconheceu que existe o risco de que os
franceses desistam. "Mas essa desistência não é esperada."
Com mais um ano de prazo, a esperança do governo é que
consórcios liderados por empresas da Coreia do Sul e do Japão também voltem a
se interessar pelo projeto. Até lá, é possível haver novas mudanças no edital
de licitação. "Com o adiamento, pode haver mudanças no edital, mas não há
solicitações nesse sentido", afirmou Borges.
Previsão. O
governo, no entanto, manteve a previsão de colocar o TAV em operação até 2020.
O prazo para a licitação da construção do trem-bala continua marcado para o
início de 2015. A União pretende dividir o traçado em diversos lotes.
O ministro disse que o postergação do leilão não tem relação
com as denúncias de cartel em licitações dos metrôs de São Paulo e Distrito
Federal. As suspeitas envolvem empresas diretamente relacionadas na disputa
pelo TAV, como a Siemens e a Alstom.
Segundo Figueiredo, o Conselho Administrativo de Defesa
Econômica (Cade), que investiga o caso, não colocou nenhum impedimento para a
realização do processo.
Polêmica. O
adiamento do TAV foi uma decisão difícil para o governo. O projeto bilionário
sempre foi cercado de polêmica, ainda mais depois das manifestações, que
cobravam mais recursos para o transporte público nas capitais. Levar à frente
uma obra desse porte em um momento em que a população cobra a construção de
linhas de metrô para resolver gargalos urbanos poderia ser um tiro político no
pé.
Apesar disso, Bernardo Figueiredo sempre defendeu a
viabilidade econômica do trem de alta velocidade.
Com o projeto, o governo não precisaria construir dois novos aeroportos - um no Rio, outro em São Paulo - além de uma nova rodovia, paralela à Via Dutra, para absorver o crescimento da demanda de passageiros entre as duas metrópoles projetado para as próximas décadas.
Bastidores: Momento político se mostrou inconveniente para o trem-bala
Embora seja um projeto tecnicamente muito importante, a
presidente Dilma Rousseff preferiu bater o martelo e adiar a licitação do Trem
de Alta Velocidade (TAV). Na avaliação do Palácio do Planalto, o momento
político é inconveniente para o anúncio de construção de um projeto cujo valor
supera os R$ 38 bilhões, enquanto a população clama por um transporte público
mais eficiente dentro das cidades.
Pesou também na decisão da presidente o fato de apenas uma
empresa ter manifestado interesse real em apresentar uma proposta para a
execução do projeto. "Não é possível levar adiante um projeto deste porte
com apenas um concorrente", sentenciou a presidente, de acordo com
auxiliares, no início da noite de domingo.
Mesmo assim, o governo não escondeu a frustração. Todos
queriam manter a data do leilão, no dia 19 de setembro. O adiamento é visto
como mais um desgaste ao projeto do trem de alta velocidade, no momento em que
o governo aposta todas as fichas no programa de concessões de rodovias,
ferrovias, portos e aeroportos para impulsionar a economia.
A decisão foi tomada no domingo, em uma reunião entre a
presidente Dilma Rousseff, o presidente da Empresa de Planejamento e Logística
(EPL), Bernardo Figueiredo, e a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. O
ministro dos Transportes, César Borges, participou via teleconferência.
Embora o trem-bala tenha sido protelado por "pelo menos
um ano", nas palavras de Borges, assessores da presidente não acreditam
que o empreendimento seja retomado em plena campanha eleitoral. Portanto, em
princípio, a obra estaria adiada para um possível segundo mandato de Dilma.
A ideia do Planalto, neste momento, é ajudar os Estados e
municípios a atenderem a uma das principais reivindicações da ruas, que detonou
as manifestações em diversas cidades do País.
A presidente foi informada dos problemas que a obra
enfrentará. De Campinas até São José dos Campos, a construção é considerada
normal e viável. Mas a parte de construção da Serra das Araras até o Rio de
Janeiro é cara e seu custo pode crescer ainda mais, dependendo da geologia do
local, que até agora não foi estudada.
Muitas empresas brasileiras que conhecem a área desistiram
de entrar na concorrência. A região está sujeita a frequentes deslizamentos de
terra, por exemplo. Engenheiros ouvidos pelo Planalto informaram que é
impossível manter a velocidade do TAV em terrenos como os que terão de ser
percorridos sem imensas e onerosas correções de solo e prevenções.
Para isso, era preciso que a velocidade média fosse bastante
reduzida.
Com isso, o governo federal não concorda. Até porque um meio de transporte com velocidade inferior a 350 quilômetros por hora não seria capaz de concorrer com o transporte aéreo, justamente o maior trunfo do trem-bala nessa região do País, que é capturar parte da demanda da ponte aérea Rio-São Paulo.
Verba para contratar
consórcio para projeto executivo será liberada
Mesmo com o adiamento por prazo indefinido do leilão para a
escolha do operador e da tecnologia do Trem de Alta Velocidade (TAV), o governo
manterá o desembolso de quase R$ 80 milhões com a contratação do consórcio que
vai cuidar do projeto executivo do trem-bala. E como o traçado da linha será
"genérico", ou seja, compatível com qualquer modelo de trem que venha
a ser escolhido no futuro, o custo das obras civis para a ligação entre
Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro poderá aumentar.
Em julho, sete dos oito grupos que concorriam na escolha do
gerenciador dos trabalhos do projeto executivo do trem-bala foram eliminados da
disputa pela Empresa de Planejamento e Logística (EPL) por terem apresentado
propostas que não estavam de acordo com o edital.
O único consórcio habilitado foi o liderado pela italiana
Italferr em parceria com a brasileira Geodata, que apresentou um orçamento de
R$ 77,3 milhões para um cronograma de 36 meses até a entrega do projeto.
Os outros sete grupos, no entanto, têm até amanhã para
apresentarem recursos contra a eliminação do processo. Dois deles entregaram
propostas com preços inferiores ao do consórcio italiano: R$ 74 milhões e R$ 75
milhões. As empresas alegam que os problemas identificados pela EPL se devem,
principalmente, a falhas de tradução, que podem ser facilmente corrigidas.
Custo. Como o
grupo vencedor precisará montar o projeto executivo do trem-bala no escuro, sem
saber a tecnologia de trem que trafegará pela linha, a tendência é que o gasto
com as obras civis que serão licitadas no começo de 2015 aumente ainda mais.
Quando lançado, em 2009, o custo previsto pelo governo era de R$ 33 bilhões,
mas as últimas estimativas já chegavam à casa dos R$ 38 bilhões.
Após a recusa do Senado Federal em aprovar a recondução de
Bernardo Figueiredo ao cargo de diretor-geral da Agência Nacional de Transportes
(ANTT) no ano passado, a presidente Dilma Rousseff criou a estatal EPL sob
medida para que o seu braço direito na condução do trem-bala continuasse à
frente das negociações para a viabilização do projeto.
Mas exatamente um ano após a constituição da empresa
pública, o empreendimento foi adiado novamente, dessa vez, sem uma nova data
para o leilão.
Em 12 meses de vida, a EPL não conseguiu realizar ainda nenhum leilão de infraestrutura para o Programa de Investimento e Logística (PIL). O primeiro está previsto para o dia 18 de setembro, para trechos rodoviários das BRs 050 e 262.
O Globo
Leilão do trem-bala é adiado por um ano
Ministro dos Transportes diz que
disputa foi adiada porque apenas um grupo havia garantido participar da
licitação. Presidente da estatal responsável pela construção da infraestrutura
diz que governo mantém cronograma para licitar obras no 1º semestre de 2015
BRASÍLIA - Mesmo depois de assumir todos os riscos do
projeto do Trem de Alta Velocidade (TAV) entre Rio, São Paulo e Campinas, o
governo foi forçado a adiar, pela terceira vez, o leilão do trem-bala, diante
da falta de interessados na obra de R$ 38 bilhões. O ministro dos Transportes,
César Borges, anunciou nesta segunda-feira que a licitação, marcada para o dia
19 de setembro, foi prorrogada por um ano, no mínimo. Segundo ele, o certame
teria apenas um participante: o consórcio liderado pelo grupo francês Alstom. O
ministro afirmou que o adiamento do leilão não tem relação com as denúncias de
cartel em licitações dos metrôs de São Paulo e Distrito Federal, envolvendo
empresas diretamente relacionadas com a disputa pelo trem-bala.
Com o adiamento, César Borges reconheceu que o projeto corre
o risco de não ser executado no atual governo. Desde que foi lançado, em 2008,
o trem-bala divide opiniões, dentro e fora do governo, pelo custo elevado da
obra e a sua real necessidade.
— Depois de muitas conversas e entendimentos com os
prováveis participantes, sentimos que o certame caminhava para apenas um
participante — disse Borges.
Expectativa por novos
interessados
Segundo o ministro, o grupo espanhol Renfe/Talgo — que
ganhou espaço no noticiário com o descarrilamento que matou 79 pessoas em
Santiago de Compostela no mês passado — tem interesse em continuar na disputa,
mas pediu um prazo de 60 dias para organizar a sua participação. Já o grupo
liderado pela empresa alemã Siemens demonstrou interesse no projeto
recentemente e solicitou prazo de um ano para levantar o capital necessário,
segundo informou César Borges. A data final para entrega das propostas seria na
sexta-feira.
— Se vamos adiar não tem porquê adiar para um e não adiar
para outro. Será dado novo prazo para apresentar as propostas — disse o
ministro, que evitou marcar uma nova data para a realização do leilão.
Perguntado se o trem-bala vai ficar para depois das
eleições, respondeu:
— Isso dependerá de uma avaliação e de uma análise
circunstancial do momento (que será feita) daqui a um ano.
O ministro destacou que o governo mantém o interesse no
trem-bala, mesmo com o adiamento do leilão, diante da necessidade de um meio de
transporte de alta capacidade para ligar três grandes polos do país. Segundo
Borges, a Empresa de Planejamento e Logística (EPL), que seria sócia do
trem-bala e responsável por construir a infraestrutura do empreendimento, vai
continuar trabalhando no projeto executivo e na licença ambiental.
O leilão marcado para o próximo mês tinha como objetivo
escolher o fornecedor da tecnologia e o operador do trem. Com o adiamento,
houve inversão das fases. A intenção é fazer a licitação das obras no primeiro
semestre de 2015, de forma que o trem possa começar a rodar em 2020.
— O adiamento da licitação não compromete o projeto — disse
o presidente da EPL, Bernardo Figueiredo, acrescentando que a ideia do governo
agora é construir uma linha que possa operar qualquer tecnologia.
Em junho, o governo retirou do edital um dos critérios para
a escolha do vencedor do leilão, que era o menor custo de infraestrutura. Ficou
valendo apenas o maior valor de outorga por quilômetro rodado. No dia 31 de
julho, foram publicadas as cartas de intenção dos fundos de pensão, do BNDES e
dos Correios, que pretendiam se associar ao consórcio vencedor, mas os
investidores consideraram os termos pouco atrativos.
Figueiredo não concorda que a proposta do governo seja pouco
atrativa, alegando que o adiamento ocorreu devido à existência de interessados
que querem mais prazo. Ele disse acreditar que grupos da Coreia do Sul e do
Japão, que estavam fora até agora da disputa, se sentirão encorajados a entrar.
Já o ministro dos Transportes não descartou novas alterações
no edital.
— É claro que, com o prazo de adiamento de um ano, poderá
haver aperfeiçoamento do edital. O que vier para aperfeiçoar e dar segurança ao
processo, poderemos fazer — disse o ministro.
Divisão no governo
A decisão de adiamento do leilão do trem-bala foi tomada no
fim de semana pela presidente Dilma Rousseff, que sempre defendeu o projeto. O
governo estava dividido. Enquanto o Ministério da Fazenda jogava contra o
leilão, a EPL queria manter a data. Bernardo Figueiredo disse que o Conselho
Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que investiga as denúncias de cartel
nas licitações dos metrôs de São Paulo e do Distrito Federal, não colocou
nenhum impedimento para a realização da licitação. Contudo, o executivo admitiu
que as denúncias pesaram no decisão.
— Isso reforça a importância de se ter um processo
competitivo — disse Figueiredo.
O Ministério dos Transportes, por sua vez, fez ponderações
sobre a existência de reais interessados no projeto, mas também posicionou-se,
nos bastidores, pelo adiamento. Na semana passada, o ministro César Borges se
reuniu com representantes das empresas com potencial para participar da disputa
a fim de avaliar se havia garantias de maior concorrência, no caso do
adiamento.
O projeto do trem-bala começou a ser discutido em 2008, no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em 2011, houve uma tentativa de licitar o empreendimento, mas, sem interessados, o leilão fracassou. O governo decidiu então mudar o modelo, separar a obra da operação e assumir o risco do projeto, elevando a participação da EPL no negócio de 30% para 45%, o que levou o Ministério Público Federal a tentar barrar o processo. Em cinco anos, a estimativa do custo subiu de R$ 14 bilhões para R$ 38 bilhões, pelo cálculos oficiais. No mercado, fala-se que o investimento pode superar R$ 50 bilhões.