07/07/2014 08:30 - O Globo
RIO - Um micro-ônibus da linha 007 (Central - Silvestre)
desce a Rua Almirante Alexandrino e passa devagar, desviando de carros parados,
em frente ao brechó de Edileuza Batista da Silva. Ela atende turistas que buscam
lembranças de Santa Teresa, enquanto ali em frente, na parte baixa da rua, as
obras do bonde ocupam o entorno do Largo do Guimarães. Os paralelepípedos foram
retirados, formando uma longa vala, onde operários trabalham, com uma betoneira
e uma retroescavadeira, na concretagem da laje que vai segurar os novos
trilhos. Mais adiante, na Rua Joaquim Murtinho, os dormentes antigos estão
sendo levados embora, e a malha nova está sendo presa ao chão da via,
interditada ao tráfego.
No Largo do Curvelo, uma britadeira acoplada a um trator
quebra o pavimento. O barulho ensurdecedor marca o desembarque dos passageiros
de outro ônibus. O veículo, que antes descia pela rua interditada, faz uma
manobra no espaço apertado da pracinha para seguir em seu trajeto alternativo
até o Centro. Com a rotina alterada desde novembro, quando os serviços
começaram, os moradores de Santa Teresa sofrem os transtornos de viver em meio
a um imenso canteiro de obras, à espera da volta do transporte que é o símbolo
do bairro.
- Nem me fale dessa obra. Ela está deixando todo mundo
doido. Antes, os ônibus passavam pelas duas pistas da Almirante Alexandrino.
Agora é tudo aqui na minha porta, bem pertinho. Fora que o trabalho está muito
devagar. Prometeram o bonde para a Copa e até agora, nada. Ele faz muita falta
- reclama Edileuza, enquanto arruma as mercadorias.
Quase três anos depois do acidente que deixou seis mortos e
tirou o bondinho das ruas do bairro, a previsão é que o transporte deverá
voltar a operar, em regime de testes, em agosto. Segundo o governo estadual, a
circulação experimental, necessária aos ajustes do sistema, será feita com um
dos 14 vagões que estão sendo construídos em uma fábrica em Três Rios. Os
testes acontecerão com cinco meses de atraso em relação ao prazo inicial,
estimado a princípio para março, no trecho das ruas Francisco Muratori e
Joaquim Murtinho até o Largo do Curvelo.
Também em agosto o estado espera começar a operação com
passageiros neste percurso, segundo o secretário estadual da Casa Civil,
Leonardo Espíndola. Contudo, a estimativa em 2013 era que, inicialmente, o
bonde estivesse rodando, já em junho, num trecho bem mais longo: do Largo da
Carioca ao Dois Irmãos, passando pelos Arcos da Lapa e pelos largos do Curvelo,
dos Guimarães e do França. Agora, a previsão é que todo esse trecho, além do
trajeto do Dois Irmãos até o Silvestre - que estava desativado antes mesmo do
acidente e ficaria pronto no segundo semestre deste ano - esteja transportando
os passageiros no fim de 2015, diz Espíndola.
- A gente está trabalhando para que as pessoas possam andar
no bonde em agosto, mas antes teremos testes de carga, de segurança. É muito
complicado dar prazos para qualquer obra, porque podem ocorrer problemas que
fogem da ingerência do estado ou do consórcio. Não é uma simples troca de
trilhos. Estamos aproveitando para colocar novas redes de drenagem, gás e água,
o que exige uma interface com concessionárias e prefeitura. Como íamos mexer
nos trilhos, decidiu-se aproveitar para entregar algo melhor - explica o secretário.
Segundo o secretário, a próxima parte a ficar pronta, ainda
este ano, será a do Largo da Carioca aos Arcos da Lapa. A implantação dos
trilhos ali, que dependia de aprovação do Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (Iphan), deverá começar nos próximos dias.
- Como os Arcos são um bem tombado e antigo, estamos fazendo
tratamento do solo, limpeza e impermeabilização antes de colocar os trilhos. E
já temos a autorização do Iphan - afirma.
O atraso nos trabalhos preocupa a Associação de Moradores e
Amigos de Santa Teresa (Amast), que teme ainda que a recuperação não seja
estendida a todo o percurso do bonde no bairro. A Amast questiona também o uso
das lajes de concreto no lugar dos dormentes.
- O que temos de obra hoje não representa 20% do sistema.
Nesse ritmo, isso não acaba antes de quatro anos. Outra preocupação é que estão
fazendo uma laje de concreto em ruas que são em encostas e colocando os
paralelepípedos por cima. O medo é que eventuais vazamentos fiquem minando o
terreno por baixo, sem ser percebidos rapidamente - diz o secretário-geral da
Amast, Álvaro Braga, que reclama ainda do impacto das obras no cotidiano dos
moradores.
A diretora-geral do Hotel Santa Teresa, Mônica Paixão, é
outra que faz coro às queixas. Segundo ela, a parte da Almirante Alexandrino em
frente à entrada principal do hotel teve paralelepípedos e trilhos removidos
parcialmente há mais de dois meses. Metade da rua virou um canteiro de obras,
que teria ficado abandonado até a semana passada, segundo ela.
- A obra ficou um tempão parada, num momento importante que
é a Copa. Fechamos pacotes de hospedagem há anos para essa época, e a entrada
do hotel ficou parecendo uma praça de guerra. Somos a favor das obras do
bondinho, queremos ele de volta, mas não dessa maneira - reclama Mônica que,
para contornar o transtorno, passou a receber a maioria dos hóspedes pela Rua
Felício dos Santos, onde são obrigados a enfrentar uma escadaria.
Na Joaquim Murtinho, enquanto dezenas de operários fixavam
os trilhos no chão, uma loja de artesanato permanecia vazia na última
terça-feira. O vendedor Natanael dos Santos conta que as vendas caíram muito
desde o início dos trabalhos:
- Já teve dia de não entrar ninguém na loja. Ficamos com um
tapume aqui na porta por dois meses.
Moradora de Santa Teresa, a doméstica Alcilene Machado
passou a descer a pé a Joaquim Murtinho para ir ao banco. Ela garante que é
mais rápido chegar ao Centro andando do que pegar ônibus, que, com as interdições,
passaram a dar uma volta muito grande.
- Está todo mundo reclamando, mas a obra está caminhando.
Agora temos que esperar, pois já está tudo quebrado mesmo - diz, conformada.
As três linhas de ônibus do bairro que passavam pela Joaquim
Murtinho tiveram os trajetos alterados. Um operador de trânsito fica
permanentemente no Largo do Curvelo, para ajudar os motoristas dos ônibus a
contornar.
- Os ônibus dão uma volta enorme - conta o bancário Bruno
Duarte. - Os taxistas também têm recusado corrida quando a pessoa fala que é
moradora de Santa Teresa. Dizem que está ruim circular pelo bairro, por causa
das obras.
O secretário Leonardo Espíndola afirma que o medo de
eventuais problemas ligados à laje de concreto que está sendo instalada é
infundado. E diz que, em obras de grande envergadura como essa, os transtornos
são esperados:
- A gente teve o maior cuidado com isso (a laje). Fizemos
estudos e estamos adotando o que tem de mais moderno. A Geo-Rio está
acompanhando os trabalhos. A gente teve uma curva de aprendizado com essa obra.
É difícil, porque isso causa impactos na vida das pessoas. Mas o impacto é
menor que o benefício que ela irá trazer.
TRAGÉDIA DEIXOU SEIS MORTOS
No pior acidente com o bonde de Santa Teresa — um dos
símbolos do turismo no Rio —, em 27 de agosto de 2011, seis pessoas morreram e
57 ficaram feridas. O veículo saiu dos trilhos, derrubou um poste e tombou numa
curva da Rua Joaquim Murtinho. Antes disso, ele teria perdido os freios.
Quatro passageiros morreram na hora. Algumas vítimas foram
jogadas para fora e esmagadas pelo próprio bonde. O condutor Nelson Correia da
Silva chegou a ser socorrido, mas não resistiu. E o bondinho ficou
completamente destruído.
Na ocasião, moradores de Santa Teresa disseram que o veículo
— com capacidade para 32 passageiros sentados e 12 em pé — descia a ladeira, em
direção ao Centro, em alta velocidade, como se estivesse sem freios.
Denunciaram ainda as condições precárias de operação dos bondinhos, por falta
de manutenção. Reclamaram também que nada tinha mudado no sistema, desde a
queda e a morte de um turista francês, dois meses antes da tragédia.
Após o acidente, a Secretaria estadual de Transportes
suspendeu a operação dos bondes. Já o laudo do Instituto de Criminalística
Carlos Éboli (ICCE) detectou 23 falhas no bondinho.