25/03/2013 07:54 - Estado de Minas
Frequentador da Lagoinha nos tempos da zona boêmia, dos
botecos lotados de operários e imigrantes italianos e das tradicionais rodas de
samba, o escritor e jornalista Wander Pirolli escreveu, em 1974, nas páginas do
Estado de Minas: "Ninguém passa pela Lagoinha em vão”. Quase quatro décadas
depois, a região, vizinha ao Centro de Belo Horizonte, se converteu em área
decadente, de tráfego frenético, cortada por viadutos e alças e, mais que isso,
um dos piores gargalos de tráfego da capital. Sem alternativas viárias nem
transporte eficiente, cerca de 120 mil veículos trafegam pelo Complexo da
Lagoinha todos os dias – pelo menos a metade deles "em vão”, contrariando o
escritor. Esse fluxo não não deveria passar por ali, caso a cidade fosse
desenhada com vias transversais ou tivesse transporte público mais eficiente,
segundo o doutor em engenharia de transportes Frederico Rodrigues. O fato é
que, do passado romântico e carregado de mitos ao presente de obstáculos para o
trânsito, a região se tornou desafio para a Prefeitura de BH, que acena com
mudanças. Porém, que não se engane quem imagina que as obras já em andamento,
associadas ao sistema de transporte rápido por ônibus (BRT, na sigla em
inglês), vão desatar os nós do emaranhado de vias: algumas modificações passam
a valer este ano, mas as principais só devem ser enfrentadas depois da Copa do
Mundo de 2014.
Na lista de alterações estão medidas que acompanham a
implantação do BRT, previsto para operar no início do ano que vem nos
corredores das avenidas Antônio Carlos/Pedro I e Cristiano Machado. Para beneficiar
a Antônio Carlos, o ramal Oiapoque do Viaduto A – uma das alças que passam ao
lado da rodoviária, no sentido Centro/bairro – vai operar em mão dupla,
exclusivamente para os coletivos. Com a nova modalidade de transporte, a
expectativa é que os 523 ônibus que trafegam pelo corredor Antônio Carlos por
manhã, por exemplo, sejam reduzidos para 296.
Mudanças mais significativas deverão ser sentidas no ramal
Pedro II do Viaduto B, uma das principais ligações entre os bairros da Região
Noroeste e o Centro da cidade. Em fase final de obras de alargamento, ele
passará a funcionar em mão dupla e seu uso também será exclusivo para o novo
sistema de transporte. A mudança vai ocorrer assim que o BRT da Pedro II,
adiado para depois da Copa, começar a ser construído, no segundo semestre de
2014, afirma o presidente da BHTrans, Ramon Victor Cesar.
Se com a interdição temporária para as obras no viaduto, que
se repetiu neste fim de semana, moradores e comerciantes da região têm
reclamado, quando a proibição para carros se tornar definitiva a reação
contrária não deverá ser diferente. "O fechamento altera a vida de todo mundo.
Antes, gastava cinco minutos para chegar ao Centro. Agora, levo quatro vezes
mais, pelo menos”, afirma Fernanda Pimenta, de 33 anos, a maioria deles vivendo
na Rua Peçanha, no Bairro Carlos Prates.
Alternativas viárias para quem parte da Pedro II e quer
chegar ao Centro ainda estão em estudo. "Vamos mudar o trânsito no Bairro
Bonfim para o motorista transpor o Ribeirão Arrudas e a linha do metrô pelo
Viaduto Oeste (que liga as avenidas Nossa Senhora de Fátima e Contorno)”,
explica o diretor de Operações da BHTrans, Edson Amorim. Outra opção seria
passar pela lateral do Viaduto B, cruzar o Complexo da Lagoinha até a Antônio
Carlos e retornar no primeiro viaduto em ferradura (Senegal). Uma terceira saída
seria passar pelo mesmo caminho, mas acessar o Viaduto Leste e chegar ao Centro
pela Rua Rio de Janeiro.
SEM TEMPO
Como o BRT tem que ficar pronto para a Copa, obras que
melhorariam a circulação no Complexo têm promessa de sair do papel apenas
depois do mundial. É o caso do alargamento do Viaduto Leste, importante ligação
das avenidas Antônio Carlos e Cristiano Machado com o Centro. Ele será ampliado
em toda a extensão e ganhará um ramal que funcionará em mão dupla somente para
o BRT. Mas, até lá, os ônibus do novo sistema trafegarão por faixa exclusiva no
viaduto, junto dos demais veículos.
"Construiremos um viaduto novo, anexo ao Leste e exclusivo
para o BRT. Em fase final, o projeto está inserido no Programa de Aceleração do
Crescimento (PAC) da Mobilidade, previsto para começar em 2014”, afirma o
presidente da BHTrans. "Por enquanto, o BRT do corredor Cristiano Machado
começa a operar com faixa exclusiva e dividindo espaço com os carros”, explica.
A implantação do Bulevar Arrudas – que consiste na cobertura do Ribeirão Arrudas –, no trecho entre as ruas Carijós (nas imediações do Barro Preto) e Rio de Janeiro (próximo ao Shopping Oiapoque), também ficará para depois. "A conclusão do bulevar nesse trecho é extremamente importante para aliviar o fluxo de cruzamento da área central”, explica o representante da BHTrans, referindo-se aos muitos carros que devem deixar de passar por áreas como as praças Sete e Raul Soares. A obra, quando se tornar realidade, deve facilitar também o movimento que hoje é feito somente pelo Complexo da Lagoinha.
