01/09/2015 09:05 - O Globo
Leia: Sobram
imóveis vazios no Brasil - O Globo
Mais
cinco décadas de espera - O Globo
RIO, BRASÍLIA e RECIFE - A casa do brasileiro é feita com o
próprio suor. Literalmente. Quase metade da população, 46%, construiu sua
própria habitação sem ajuda profissional de um engenheiro ou arquiteto, mostra
pesquisa inédita do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) à qual O GLOBO
teve acesso. A construção é tocada por parentes ou, no máximo, um mestre de
obras. Por dentro, a casa do brasileiro anda cada vez mais equipada. Por fora,
contudo, a infraestrutura deixa a desejar: os governos não expandem a oferta de
serviços públicos no mesmo ritmo de melhoria que a população consegue fazer da
porta para dentro.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios
(Pnad) do IBGE de 2013, 85,3% dos domicílios estão conectados à rede água. No
caso do esgoto, o percentual é de 64,3%.
Já do lado de dentro, as casas melhoram em suaves
prestações. O boom do crédito nos últimos anos equipou as residências. A
televisão a cores chegou a 97,2% dos lares, praticamente a mesma presença das
geladeiras (97,3%). Em 58,3% deles há máquina de lavar, e 49,5% têm computador.
CONDOMÍNIO COM PISCINA, MAS SEM ÁGUA
Marcelo da Silva Coimbra comprou um apartamento em Nova
Iguaçu na planta, que hoje é vendido por até R$ 500 mil, para dar mais conforto
à mulher e aos dois filhos adolescentes. O condomínio tem sauna, quadra de
esportes, salão de festas, estúdio musical e, claro, piscina. O que ele não
sabia é que, muitas vezes, precisaria pegar água da piscina para usar no
banheiro de casa.
— Não é um problema só do verão não. Entre julho e agosto
faltou água em 20 dias. O valor do nosso condomínio sobe com a compra de
caminhão–pipa. Mas, às vezes, vários prédios da região compram água e falta até
o caminhão-pipa — conta o representante comercial e pastor.
Marcelo diz não entender, pois seu prédio fica muito perto
do Guandu, de onde a maior parte da água do Rio é captada. Ele chegou a voltar
à antiga casa para tomar banho e já ameaça voltar a morar lá, para desespero
dos filhos, que se acostumaram com o condomínio completo, perto das escolas, e
sonham com o vizinho ilustre que está se instalando a apenas cinco minutos de
caminhada: um grande shopping.
—Mas é um problema de política. Tem até moradores que
processam a construtora, mas eles fizeram a parte deles. O que falta é governo.
Conheço mais de dez moradores que saíram do prédio, de 452 apartamentos, por
causa da falta d’água— diz.
A vizinha Catiane Medeiro já decidiu: não fará o aniversário
de primeiro ano de seu filho no salão de festas do prédio. Ela queria, mas teme
a falta d’água:
— Já imaginou você com um monte de convidados e faltar água
pra dar descarga no banheiro do salão? Deus me livre! Prefiro pagar uma casa de
festas, vai sair mais caro, mas não tem solução .
A Cedae, responsável pelo abastecimento do prédio, informou
que "técnicos da companhia vão vistoriar a rede para verificar se há algum
problema de vazamento ou obstrução”.
EM PALAFITA, MAS COM TV LED DE 42 POLEGADAS
O televisor de LED com 42 polegadas, ainda com prestações a
pagar, é o bem material mais precioso na casa de Jane Fernandes. A pescadora
mora numa palafita de apenas um cômodo e cinco metros quadrados no Recife. Jane
não tem fogão. A comida é feita numa lata de tinta recheada de carvão. Também
não tem banheiro em casa. Divide um, completamente improvisado, com os
vizinhos.
— Eu quero um apartamento. Por enquanto, vamos vivendo aqui.
De dia, é um calor só, mas à noite é fresquinho — conta.
Jane se aperta como grande parte dos brasileiros mais
pobres. É na fatia da população com renda até oito salários mínimos (R$ 6.300)
que estão os domicílios com maior número de moradores, em média, 4,9 pessoas
por casa.
Nas faixas de renda mais baixas também se concentram as
pessoas que constroem suas casas sem nenhuma assistência técnica. Segundo
especialistas, além do perigo de a estrutura desabar, a prática contribui para
que o mercado da construção do país continue atrasado e poluente.
— Na China, há quase duas décadas não há mais tijolo.
Empilhar tijolo é trabalho lento, insalubre. As empreiteiras que estão aí fazem
obras do passado — diz Haroldo Pinheiro, presidente do CAU.
‘Querida, encolhi os
imóveis’
Na sala, a televisão foi parar em um painel na parede. O
rack foi eliminado, assim como a mesa de centro. Já a mesa de jantar agora é só
para quatro pessoas. No quarto, a cama é box, o que permite guardar coisas
dentro. Para abrir o armário de roupas, é preciso sentar na cama. No quarto das
crianças, a beliche é a alternativa mais frequente. No banheiro, o vaso
sanitário fica atrás da porta. Esses são exemplos do que mudou na organização
de uma casa para se adaptar a uma nova realidade: a redução das plantas dos
apartamentos nos últimos anos.
O espaço dos apartamentos lançados na cidade do Rio caiu até
quase 30% entre 2002 e 2014, segundo levantamento da Associação de Dirigentes
de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi RJ). A maior queda é nos imóveis de
um quarto, cujo tamanho médio caiu de 55,77 metros quadrados para 39,49 metros
(-29,1%). Nos apartamentos de dois quartos, essa redução foi um pouco menor, de
18%, de 71,28 metros para 58,40 metros. Já os de três quartos passaram de 94,25
metros para 81,05 metros, ou 14% de queda.
Na região metropolitana de São Paulo, entre 2005 e 2014, os
apartamentos de um quarto ficaram 14% menores, de 42,78 metros para 36,56
metros. O tamanho médio dos lançamentos de um quarto em 2014 foi de 36,56
metros, mas muitos chegavam a 19 metros.
MÓVEIS EM OUTRO LUGAR
Slomo Wenkert, fundador da SW Arquitetura e Planejamento
Urbano e conselheiro da Ademi RJ, explica que a tendência de diminuição dos
imóveis reflete o aumento do custo dos terrenos, que são limitados,
especialmente nos centros urbanos.
— Antigamente, o conforto do apartamento era medido pelo
número de metros quadrados. Hoje, é pela funcionalidade e praticidade — afirma.
Levantamento feito pelo professor João da Rocha Lima Jr, do
Núcleo de Real State da Poli/USP, mostra que o aumento no custo dos imóveis foi
maior que o da renda nos últimos dez anos. Uma família que comprava um imóvel
de cem metros quadrados em Vila Olímpia, bairro de classe média alta em São
Paulo, em 2005, só poderia comprar um apartamento de 44,4 metros quadrados em
junho de 2015. Nem mesmo no centro de Osasco, na região metropolitana, seria
possível comprar um imóvel de cem metros: o tamanho do imóvel seria de 74
metros. Os exemplos são para São Paulo, mas refletem a realidade de outras
cidades brasileiras.
— Os preços relativos dos imóveis em outros países são
superiores aos brasileiros, mesmo em locais como o Leblon. Mas a alta dos
preços no Brasil foi bem acima da renda média no país nos últimos anos —
explica.
NOVO NICHO NO MERCADO DE MÓVEIS
A redução no tamanho dos imóveis fez crescer um nicho entre
os fabricantes de móveis. Lojas como Tok&Stok e Oppa investem em móveis que
podem se encaixar em apartamentos menores. Um sucesso são aqueles com mais de
uma função, como cama baú, mesa de centro com gaveta e banco que também serve
de escada.
Além disso, surgem novos negócios, como a autoarmazenagem
(self-storage), em que se aluga espaços para guardar o que não cabe em casa.
Foi o que fez o analista de sistemas Jorge Alfredo Kaiuca, que aluga um box no
Guarde Aqui, no Maracanã, para armazenar os itens de marcenaria.
— Os apartamentos menores acabam criando uma demanda natural
por espaço. O self-storage pode ser usado para guardar malas, móveis fora de
uso e até enfeites de Natal. É como se fosse uma garagem de casa — explica
Allan James Paiotti, diretor-executivo do Guarde Aqui.