06/02/2023 08:00 - Diário do Transporte
ADAMO BAZANI
Empresas de ônibus de São Paulo estão descumprindo uma determinação da SPTrans (São Paulo Transporte) e coletivos são flagrados trafegando com portas abertas ou arrancando dos pontos sem ainda as portas estarem completamente fechadas, o que é um perigo, podendo causar graves acidentes, em especial no desembarque.
Não precisa de muito tempo observando os ônibus para verificar o problema. Basta ficar em um ponto e ver que mesmo antes de fechar as portas completamente, muitos ônibus já partem.
Sob condição de anonimato, funcionários de viações dizem que equipamentos que deveriam impedir que os ônibus trafeguem de portas abertas, no setor de transportes chamados de “anjos da guarda”, são adulterados. Os novos ônibus já saem de fábrica com estes aparelhos, mas nas garagens, são mexidos. De acordo com estes trabalhadores, tudo para ganhar segundos que, se somados, em milhares de paradas nos pontos que os ônibus fazem por dia em São Paulo, podem fazer a diferença no cumprimento de horários.
Mas a segurança dos usuários, é colocada em risco real.
No dia 17 de janeiro de 2023, por exemplo, uma mulher caiu de um ônibus da empresa A2 Transportes enquanto o coletivo já partia na Rua Santo Afonso, travessa da Avenida Cupecê, na Zona Sul da capital paulista. A porta do meio ainda estava fechando e ônibus já se movimentava. A mulher sofreu ferimentos.
Relembre:
A SPTrans (São Paulo Transporte), que gerencia os transportes na capital paulista, reconhece que o problema existe e diz que fiscaliza e multa as empresas de ônibus.
Somente em 2022, foram aplicadas 60 autuações referentes à circulação de ônibus com as portas abertas. Em janeiro de 2023, foram três multas.
Balanço da SPTrans contabiliza 14 empresas autuadas em 2022 e duas em 2023.
A multa para cada flagrante de circulação com portas abertas é de R$ 792,00.
Sobre o caso da mulher que caiu no desembarque, a SPTrans diz que foi constata imperícia do motorista, que foi afastado.
No dia 31 de janeiro de 2023, um homem de 82 anos morreu na região do Aricanduva, na zona Leste de São Paulo, logo após desembarcar e cair sob a roda dianteira da direita do ônibus da Allibus Transportes.
Pelas imagens, não é possível ter plena certeza de que o coletivo já tinha fechado a porta dianteira, mas foi questão de segundos entre o desembarque, a queda e o motorista começar a sair com o ônibus e passar por cima do homem.
A SPTrans apura as circunstâncias.
Relembre:
Nestes dois casos, tanto da A2 Transporte, na zona Sul, como da Allibus, na zona Leste, são ônibus de ex-cooperativas, do subsistema local, que atendem os bairros. Estes veículos não possuem cobradores.
Para o SindMotoristas, sindicato que representa os trabalhadores de transportes urbanos na cidade de São Paulo, o cobrador é fundamental para ajudar a evitar os acidentes no embarque e, principalmente, no desembarque.
“A visão de que eles são profissionais que se limitam a cobrar pelas passagens é extremamente equivocada, eles são agentes sociais que desempenham funções importantíssimas para o bom funcionamento dos veículos: controlam a ocupação de assentos reservados, inibem situações de assédio, auxiliam deficientes, orientam usuários sobre itinerários, entre outras”, disse para o Diário do Transporte, o secretário de saúde do sindicato, Valdemir de Jesus Santos.
A presença do cobrador, entretanto, não tira a importância do dispositivo bloqueador de portas, o “anjo da guarda” e manutenção dos demais equipamentos, segundo a entidade.
Ainda em resposta ao Diário do Transporte, a SPTrans diz que em 2022, realizou 77.955 vistorias nos ônibus. A frota é de cerca de 13 mil coletivos de diversos portes, desde micro-ônibus até articulados de 23 metros de comprimento.
O Diário do Transporte também procurou o SPUrbanuss (Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo, sindicato que reúne as empresas que operam os ônibus de maior porte (subsistemas estrutural e de articulação regional).
Segundo a entidade, os ônibus urbanos passam por inspeção periódica e amostral e diz que, ao menos entre as associadas, não é um problema recorrente.
Veja as notas de resposta na íntegra (SPTrans, SindMotoristas e SPUrbanuss):
NOTA SPTRANS:
A SPTrans, gestora do sistema de transporte público municipal de São Paulo, informa que é terminantemente proibido ônibus do transporte coletivo municipal trafegar de portas abertas de acordo com a norma ABNT NBR 15570.
Em caso de descumprimento, a empresa concessionária é multada imediatamente. Se houver a ocorrência de acidente com vítima, como prevê o Programa de Redução de Acidentes em Transportes (PRAT), o motorista é afastado.
O veículo é levado para inspeção. Se constatado defeito no funcionamento das portas, o ônibus é lacrado e impedido de circular até que a falha seja corrigida e o carro seja aprovado em nova inspeção.
Para impedir esse tipo de ocorrência, a SPTrans faz fiscalização de campo, além de contar com vistorias periódicas, em que 100% dos veículos do sistema passam por inspeções no mínimo uma vez por semestre. Também são realizadas inspeções amostrais, em que uma amostra da frota é convocada para ser inspecionada, sem prévio aviso. No último ano foram realizadas 77.955 vistorias.
A título de esclarecimento, os ônibus já saem de fábrica com equipamentos instalados para impedir a sua circulação com as portas abertas. Trata-se de item de segurança obrigatório.
Em 2022, foram aplicadas 60 autuações referentes à circulação de ônibus com a porta aberta. Em janeiro de 2023, foram três casos. Um balanço contabiliza 14 empresas autuadas em 2022 e duas em 2023. A multa para cada infração é de R$ 792,00.
No caso ocorrido no dia 17 de janeiro, o ônibus já passou por vistoria. A conclusão preliminar apontou que o motorista agiu de forma imprudente e foi afastado. O fato está sendo investigado pela autoridade policial em inquérito.
Sobre o caso do dia 31 de janeiro, o veículo está passando por vistoria convocada pela SPTrans.
NOTA SINDMOTORISTAS:
“Uma das maiores lutas e desafios do Sindmotoristas é mostrar às autoridades e aos empresários a importância do cobrador dentro do ônibus. A visão de que eles são profissionais que se limitam a cobrar pelas passagens é extremamente equivocada, eles são agentes sociais que desempenham funções importantíssimas para o bom funcionamento dos veículos: controlam a ocupação de assentos reservados, inibem situações de assédio, auxiliam deficientes, orientam usuários sobre itinerários, entre outras. É preciso reconhecer o papel social desses profissionais. É por essas e outras razões que o sindicato sempre defenderá o emprego dos cobradores no sistema de transporte rodoviário de São Paulo. Igualmente, defendemos, fiscalizamos e denunciamos veículos em condições precárias e a falta de investimento na manutenção dos mesmos visando garantir a segurança dos profissionais, usuários, pedestres e condutores de outros veículos. Não podemos permitir que a ganância de uns coloque em risco a segurança e a vida de outros”, afirmou o secretário de saúde do sindicato, Valdemir de Jesus Santos (Mi).
NOTA SPURBANUSS:
O SPUrbanuss, que representa apenas as empresas concessionárias dos grupos Estrutural e Articulação, lembra que todos os ônibus urbanos passam por inspeção periódica e amostral, além da fiscalização de campo, efetuadas pela SPTrans, com índices de aprovação satisfatórios. Os trabalhadores são treinados e instruídos para proceder ao imediato recolhimento do veículo de operação, caso qualquer problema, especialmente relacionado à segurança, seja verificado. Esse tipo de acusação, se acompanhada do prefixo do ônibus e horário, permite que as empresas possam agir eficazmente na correção do problema. Causa uma certa estranheza, pelo menos em relação às nossas associadas, uma vez que não é exatamente um problema recorrente.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes