07/04/2013 12:52 - Estado de Minas
Congonhas e Coronel Xavier Chaves – Quando Patrícia Venâncio
tinha apenas 10 meses, seu pai, João Maria Venâncio, morreu. Ele era
carpinteiro e montava a estrutura de uma pilastra de um viaduto da Ferrovia do
Aço, quando caiu. Além do bebê, João deixou Cristiane, de 3 anos, e a viúva
Aparecida Venâncio. "Como consegui criá-las? Deus me ajudou”, explica
Aparecida, hoje com 55 anos, que trabalhou como empregada doméstica e na roça,
em plantações de milho e feijão.
Assim como João, que deixou Florianópolis (SC) para
particiipar da construção da Ferrovia do Aço, outros trabalhadores vieram de
diferentes regiões do Brasil e tiveram seu destino modificado por causa de uma
das maiores obras já executadas no país. A ferrovia foi, com a Usina de Itaipu,
a Ponte Rio-Niterói e a Transamazônica, um dos projetos empreendidos pelo
governo militar e que reforçaram o argumento – após o golpe em 1964 – para que
os generais se sustentassem no poder, com um discurso de progresso e
desenvolvimento.
Porém, na prática, a realidade foi bem diferente. Quando a
construção da ferrovia foi anunciada, no governo do general Emílio Garrastazu
Médici, em maio de 1973, a previsão era de que a obra duraria apenas 1 mil
dias, ou seja, menos de três anos. Entretanto, a primeira inauguração, com o
projeto totalmente modificado e reduzido, foi apenas em 1989, no governo de
José Sarney (PMDB), após 5.140 dias.
O anúncio das obras foi feito no mesmo período da
primeira grande crise mundial do
petróleo, o que diminuiu o ritmo de crescimento da economia brasileira. Os
planos do governo militar eram calcados no período conhecido como milagre
econômico, com a economia crescendo a taxas superiores a 10% ao ano, mas que
com a crise internacional começou a perder fôlego. Como os militares que
comandavam o país abusaram dos empréstimos internacionais para financiar as obras
faraônicas, a dívida externa explodiu. Seguiu-se então um período de inflação
elevadíssima, que só foi terminar em 1994, no governo de Itamar Franco, quando
foi instituído o Plano Real.
As obras da ferrovia começaram apenas em 1975 e foram gastos
US$ 4 bilhões no total. Planejada para ligar Belo Horizonte ao Rio de Janeiro e
São Paulo, ela teve o projeto reduzido. A ferrovia começa em Itabirito e vai
até Volta Redonda (RJ). De Itutinga, no Sul de Minas, deveria sair outro ramal
que iria até São Paulo, mas ele também não foi concluído. Nos anos seguintes,
com dinheiro da iniciativa privada, principalmente da antiga Minerações Brasileiras
Reunidas (MBR), que foi comprada pela Vale, o trecho entre Itabirito e Jeceaba
foi feito. Os trechos entre Belo Horizonte e Itabirito foram suspensos e seis
túneis ficaram prontos, que somam nove quilômetros de extensão, quatro viadutos
inacabados e aproximadamente vinte quilômetros de aterros e galerias cobertos
de mato estão abandonados.
Privatizada em 1996, no governo de Fernando Henrique Cardoso
(PSDB), a ferrovia está hoje sob a concessão da MRS Logística. A previsão
inicial de gastos era US$ 743 milhões, que foi superada mais de cinco vezes.
Outra falha é que a ferrovia deveria ser completamente eletrificada, o que não
aconteceu. Tantos atrasos e mudanças fizeram com que a obra fosse apelidada de
Ferrovia do Acho.
ORGULHO
Porém, quem participou da construção se orgulha do feito. O
diretor da construtora gaúcha Toniolo Busnello, Humberto Busnello, lembra que a
empresa foi contratada para fazer túneis entre Congonhas e Jeceaba. "Foi uma
experiência muito importante para a empresa. A exigência era fazer a obra no
curto prazo, e compramos equipamentos novos”, recorda Busnello. O executivo
lembra que foram contratados cinco profissionais italianos com experiência em
perfurar túneis.
Um dos vértices do Quadrilátero Ferrífero, a região de Congonhas, o Alto Paraopeba, é a principal fornecedora do minério que é transportado hoje pela Ferrovia do Aço. São carregados 110 milhões de toneladas de minério de ferro para os portos do Rio de Janeiro e para a usina da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda (RJ). Por dia são até 30 composições, com 134 vagões e quatro locomotivas. Passam também mais três a cinco composições por dia que levam cimento, sucata, gusa e produtos siderúrgicos.