Haddad quer cercar Cantareira para reduzir impacto do Rodoanel Norte

18/05/2013 07:21 - O Estado de SP

Para reduzir os impactos do Trecho Norte do Rodoanel, em construção desde março, a Prefeitura de São Paulo quer muros ou grades no entorno do Parque Estadual da Cantareira, criado em 1963 entre a zona norte da capital e outros municípios. A ideia para evitar ocupações irregulares foi anunciada ontem pelo prefeito Fernando Haddad (PT) e recebeu a aprovação do governador Geraldo Alckmin (PSDB).

A intenção de Haddad é que a Desenvolvimento Rodoviário S.A. (Dersa), empresa estadual responsável pela construção do Rodoanel, possa cercar o perímetro de quase 40 quilômetros da área verde, uma das principais reservas de Mata Atlântica remanescentes em São Paulo. Segundo o petista, seria uma contrapartida da obra rodoviária, polêmica entre ambientalistas e defensores da floresta.

"É um investimento que, na minha opinião, seria de grande valia para a cidade de São Paulo e para a Região Metropolitana, em função do fato de que se trata de um patrimônio da humanidade", declarou ontem Haddad, ao lado de Alckmin, em um evento na sede da Prefeitura, onde foi confirmada a data para aumento das tarifas de ônibus, metrô e trens.

Em seguida, o governador disse que "anotou" o objetivo do governo municipal e avaliará o gasto necessário para a implementação. "Anotei aqui porque acho que essa é uma boa proposta. Vamos avaliar o custo e verificar, mas acho que é a lógica da compensação ambiental: você sempre trazer um benefício a mais para a população."

Não ficou claro se a medida trará despesas extras à obra do Trecho Norte, que, de acordo com a Dersa, custará R$ 5,6 bilhões, entre construção, compensações ambientais, desapropriações e ações complementares. O percurso desse ramal do Rodoanel será de 44 km, com conclusão prevista para 2016.

Por enquanto, as compensações ambientais desse empreendimento giram em torno de ações como o plantio de 1,7 milhões de mudas de espécies nativas e o pagamento de R$ 24,3 milhões pela Lei do Sistema Nacional de Unidade de Conservação. A Dersa informou que o Trecho Norte "passará ao sul da Serra da Cantareira e não cortará o Parque Estadual" e "as interseções com o parque serão feitas em dois túneis que somam 2,8 km".

Haddad disse que quer deixar o Parque da Cantareira cercado como os Parques Anhanguera, que é municipal e fica na zona norte, e o estadual Fontes do Ipiranga, na zona sul.

Reserva ameaçada

Com 7,9 mil hectares, o Parque Estadual da Cantareira fica entre São Paulo, Caieiras, Mairiporã e Guarulhos. Segundo a Secretaria Estadual do Verde, é tido como uma das maiores florestas urbanas do mundo.

Em 1994, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) o classificou como parte da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde da cidade de São Paulo, onde está a maior porção do Cantareira. Nas últimas décadas, o parque tem sofrido com invasões que diminuíram a cobertura verde.

Moradias humildes e até mansões foram sendo construídas sem autorização ao longo do tempo. Para o ambientalista Maurício Waldman, doutor em Geociências pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a discussão sobre a instalação de grades ou muros no entorno do Cantareira é "inócua". "As pessoas precisam começar a pensar em um processo de ocupação do espaço mais decente e não ficar falando em paliativos, como colocar cerca."

A tese de Waldman foi sobre o Parque da Cantareira. Ele lembra que o cercamento de áreas por onde passam vias, sejam elas férreas ou rodoviárias, muitas vezes não funciona. "O processo de ocupação vai continuar ocorrendo."

Ainda na avaliação do especialista, o trânsito na cidade "não vai ser resolvido pelo Rodoanel", mas sim com planejamento da rede de transportes, principalmente pública.

Ontem, Alckmin disse que, quando os 178 km do anel viário estiverem prontos, 17 mil caminhões serão retirados por dia da capital, de vias como a Marginal do Tietê. Ele também diz que o Trecho Norte impactará fauna e flora da Serra da Cantareira. "Tem impacto de ruído, de material particulado emitido por veículos. E tem acidentes com transportes de cargas perigosas que podem derramar."

OCUPAÇÃO

Em 28 anos, área verde da região retrocedeu para dar lugar a ruas e bairros inteiros

1,7 milhões de mudas de espécies nativas serão plantadas para compensar a obra

44 km será o percurso total do Trecho Norte do Rodoanel, com conclusão para 2016

ANÁLISE: Carlos Bocuhy - ambientalista

Ocupação dessa área será extremamente danosa para a cidade

Dizer que o Rodoanel pode vir com um "muro de Berlim” para conter a invasão da Cantareira não faz o menor sentido. Pode ser uma medida de demarcação, mas o que vai resolver o problema das invasões ali é política pública. Seja construindo habitações, seja tentando conter a especulação imobiliária. Na Serra da Cantareira, surgiram 200 loteamentos clandestinos em cerca de quatro anos. Houve um boom de especulação naquela área.

Acredito que colocar o Rodoanel como uma medida de contenção do crescimento da metrópole é uma falácia, porque ele não vai fazer mais nada do que levar um vetor de ocupação para o norte. E não o contrário. Nunca vai ser uma barreira para conter a especulação. Toda obra viária acaba estimulando a ocupação e, nesse sentido, temos o exemplo do Trecho Oeste do Rodoanel, o primeiro a ser construído e entregue. Era para ser uma rodovia fechada, mas logo depois houve um decreto do governador autorizando os empreendimentos às margens da via a poder criar seus acessos.

Além disso, o Rodoanel Norte está em desconformidade com o Plano Diretor da cidade de São Paulo no que tange à localização. Ele não poderia ser construído a menos de 20 km do centro, mas está a 9 km. Na minha opinião, a Prefeitura está tentando criar um factoide, porque o Rodoanel estimula a expansão. A própria existência da rodovia tipifica um vetor de ocupação. Os Trechos Oeste e Sul sofreram com a especulação e o Leste, em construção, já está sofrendo. O Norte vai sofrer também. A diferença é que, neste caso, o impacto será muito maior por causa da qualidade ambiental da área. É um equívoco e o futuro vai demonstrar que esse vetor de ocupação será extremamente danoso para a cidade.