11/10/2013 08:00 - Revista Época
LUÍS ANTÔNIO GIRON
Quando o sociólogo espanhol Manuel Castells desembarcou em
São Paulo, no início de maio, para participar da série Fronteiras do
Pensamento, os protestos contra o governo e os políticos estavam se
intensificando em todo o Brasil. Parecia coincidência. Castells, de 71 anos,
professor de Comunicação da Universidade do Sul da Califórnia, é um dos maiores
estudiosos das transformações sociais provocadas naquela que ele denominou "Era
da Internet”. Publicou em 2001 o ensaio A galáxia da Internet, sobre a relação
entre ida virtual e vida real. Agora lança no Brasil Redes de indignação e
esperança - Movimentos sociais na era da internet (Zahar, 276 páginas, R$
49,90), livro em que analisa os movimentos sociais em rede. Castells falou a
ÉPOCA na ocasião e, com o crescimento dos protestos, respondeu a outras
perguntas por telefone, de Los Angeles. Castells, pequenino e hiperativo, fala
rápido, o que torna difícil acompanhar o ritmo de seu raciocínio. Nesta
entrevista exclusiva, ele diz que os protestos são um fenômeno mundial que
nasceu da indignação das pessoas e está pondo em risco as bases da democracia –
e que será necessário reinventar a política, já que ela não está suprindo as
necessidades básicas da população, mas sim servindo a ela mesma.
ÉPOCA - Que análise o
senhor faz das manifestações que se alastraram pelo Brasil desde maio contra o
governo, algumas delas marcadas pela violência?
Manuel Castells - Não são exatamente manifestações contra o
governo, mas contra o sistema político e a casta políica que a mairoida dos
jovens não consideram que a representa. É o mesmo tipo de movimento que está
acontecendo em outros países nos últimos três anos. Mas no Brasil é ainda mais
significativo porque ocorre em um contexto de crescimento econômico e de
redução da pobreza. Acima de tudo é uma questão de direitos dos cidadãos. A
violência é extremamente negativa pra o movimento porque assusta muita gente –
e com razão. Por isso é frequente em outr países (não no Brasil) que uma parte
da violência é provocada pela polícia e por provcadores a serviço da polícia.
Mas está claro que a violência cotidiana que caracteriza as cidades brasileiras
também está presente no movimento, mesmo que a imensa maioria seja pacífica. O
movimento expressa a sociedade brasileira. E a sociedade brasileira hoje se
característica por uma violência urbana considerável ligada ás máfias da droga
e da marginalização de muitos jovens.
ÉPOCA - O que o senhor
acha da reação da presidente Dilma às manifestações, fazendo promessas em
pronunciamentos?
Manuel Castells - Ela tomou medidas concretas em matéria de
transporte, educação e saúde. E se reuniu com alguns representantes dos jovens
para ouvi-los. Sobretudo, ela fez algo único no mundo: legitimar o movimento
com seus pronunciamentos. Além disso ela tenta levar ao Congresso um projeto de
reforma política que quer aprovar por plebiscito porque o Congresso não é capaz
de reformar a si mesmo. E é isso que os críticos temem, que ela leve adiante
uma reforma política que ataque seus privilégios e a corrupção. É um ato de
coragem porque a classe política tradicional, com conexões nos meios de
comunicação, lançou-se em uma campanha de desprestígio que fez diminuir a
popularidade da presidente. Mas ela está consciente de que, se não reforma a
política a médio prazo, a separação entre instituições e cidadãos é inevitável
e a democracia pode deixar de ter sentido para muitas pessoas.
ÉPOCA - Em Redes de
indignação e esperança, o senhor analisa o papel das redes sociais nos
movimentos sociais recentes, como a Primavera Árabe e o movimento Occupy Wall
Street. É possível uma revolução social com as redes sociais interconectadas
aos movimentos sociais?
Manuel Castells - É preciso distinguir as redes informáticas
– como Twitter e Facebook – e os computadores interligados formam a sociedade
em rede – dos movimentos sociais em rede. Eles surgiram na última década com
intensidade crescente. É o que procuro analisar no livro Redes de indignação e
esperança: como os movimentos sociais se organizaram em redes entre 2009 e
2012. Eu analiso os movimentos que se caracterizam por começar sempre na
internet, via redes móveis e redes sociais. Em seguida, apoiam-se em redes
sociais fora da internet para organizar a ocupação do espaço público e
construir um espaço de autonomia, a um só tempo na internet e nas ruas. É essa
forma como acontecem os movimentos sociais em toda parte, em Istambul, Nova
York, São Paulo, Rio de Janeiro, em todo lugar. Se é possível uma revolução,
que compreende a deposição de um regime e a substituição por outro? Depende.
Nos países árabes tentaram. De certo modo isso aconteceu no Egito, onde forças
excluídas do sistema político conseguiram tomar o Estado, e isso por causa das
redes sociais na internet e de forma pacífica.
ÉPOCA - Por que esses
movimentos estão crescendo e se alastrando?
Manuel Castells - Eles dão certo por uma razão: porque são
movimentos autônomos, constroem um espaço de autonomia fora dos
condicionamentos dos partidos políticos, do Estado, das empresas – e constroem
suas redes próprias sem líderes. É quanto atuam a cultura e a tecnologia em uma
sociedade. O fenômeno mais importante na sociedade atual é a autonomia, a
capacidade de a pessoa decidir a sua própria vida, para todo mundo. O que mais
nos importa é decidir nossa vida – com nossas limitações. A internet é uma
tecnologia velha – foi criada em 1969 -, mas o mais importante é que ela é
também um produto cultural. Foi organizada a partir de valores como liberdade e
autonomia. Portanto, o tipo de tecnologia em rede e o tipo de padrão cultural
baseado na autonomia coincidem. Hoje, qualquer mensagem que se quer livre e
autônoma não passa por um partido ou por um jornal. Se há uma mensagem que se
conecta com outras mentes conectadas na rede, então essa aceitação dá início a
um movimento. Os atores são coletivos, sem burocracia, sem hierarquia, sem
líderes.
ÉPOCA - Que diferença
o senhor vê entre os movimentos sociais antes da internet e os atuais
movimentos sociais em rede?
Manuel Castells - As redes sem tecnologia de rede de tipo
eletrônico não podem lidar com a velocidade e a complexidade que requer o aumento
da rede. Portanto, as redes tradicionais implicam velhas formas de organização
social, elas fazem parte da história da humanidade. Não podiam antes conectar
muitos indivíduos ou organizar a ação coletiva porque tinham limites físicos
aonde queriam chegar. Hoje não há mais limites. As redes de internet não têm
limites de tempo e espaço e podem se reconfigurar constantemente. A tecnologia
não determina a ação social, mas permite um tipo de organização que sem a
internet não existiria.
ÉPOCA - Com acontecerão
as transformações sociais?
Manuel Castells - Elas não vão acontecer por meio das
instituicões políticas. A mudança está na cabeça das pessoas. Os movimentos
sociais não tomam o poder. Eles dissolvem o poder por meio da transformação
mental. É o que acontece até hoje com o movimento das mulheres. Elas vivem hoje
uma situação muito diferente do que há 50 anos. Elas tomaram o poder? Não. As
mulheres se transformaram elas mesmas. E a forma como as mulheres pensam de si
próprias mudou toda a sociedade. As mulheres fizeram um movimento social com
impacto de transformação cultural. O movimento ecológico é a mesma coisa. Há 30
anos temos os mesmos problemas climáticos. Mas ninguém sabia nem se
preocupavam. Hoje. 85% das pessoas do mundo sabem o que é a mudança climática –
e acham que os governos devem se ocupar desse problema. E isso se produziu
como? Com a combinação da aliança entre os jornalistas profissionais, os
cientistas e movimentos sociais. Todos esses movimentos estão impactando a
consciência da maioria dos cidadãos. Sobretudo em um tema central: em todos os
lugares do mundo, ninguém mais confia nos políticos. Acontece agora a rejeição
mundial, no Brasil inclusive, do cidadão à classe política, aos partidos, aos
governos. A percepção é que eles não respondem aos interesses dos cidadãos, mas
sim aos interesses financeiros. O que acontece no mundo é o corte total entre
os cidadãos e seus representantes. Os movimentos mostraram aos cidadãos que
eles podem pensar atuar fora das instituições.
ÉPOCA - Isso é bom ou
mal?
Manuel Castells - Veremos na prática. Porque há um abismo
entre as pessoas que querem mudar sua vida e a sociedade e as instituições
políticas. A diferença só se agravou. A perspectiva histórica desses movimentos
é pensar que é possível encontrar pouco a pouco forma de reconstruição
democrática e formas de novas representações. Por isso, não há líderes,
organizações nem partidos.
ÉPOCA - Teria de
acontecer um novo pacto social?
Manuel Castells - Sim, mas para pactuar é preciso dois
lados. Os que detêm o poder só fazem pacto quando não há outro remédio. Esses
movimentos creem que as coisas como estão não têm como se sustentar por muito
tempo. Sem conexão entre as instituições e a sociedade, não se processam as
demandas e os valores. Esse bloqueio se transforma em violência, agressividade,
cinismo e destrupção dos laços sociais. Os movimentos estão tentando
reconstruir o tecido social entre as pessoas, entre os cidadãos. E assim todos
experimentarão que tipo de representação democrática pode existir. São
movimentos fundamentalmente democráticos que não veem instrumentos de
representação nas instituição.
ÉPOCA - Como explicar
as manifestações que começam com um motivo específico para depois se desdobrar
em agendas mais amplas? É um movimento sem consistência ou esse tipo de
situação é a marca do nosso tempo?
Manuel Castells - Essa é uma característica comum a todos os
movimentos indignados em rede, em todos os países. São espontâneos, não
dirigidos, começam por um fato insuportável, mas imediatamente surgem milhares
de humilhações sofridas, cada dia por muitas pessoas, em particular os jovens,
por causa das burocracias políticas. Com diziam os manifestantes de São Paulo
em maio, "não são 20 centavos, são nossos direitos”. Como as instituições não
processam realmente os problemas das pessoas, e sim se ocupam em satisfazer os
políticos e seus aliados em primeiro lugar, quando há um canal de expressão na
rua, aparecem coletivamente todas as demandas que cada um pode expressar
individualmente.
ÉPOCA - O senhor já
disse que o pacto social das democracias está se rompendo em todo o mundo. Com
isso, a política terá de ser reinventada? Há uma solução para o problema da
crise de credibilidade que sofrem hoje o poder e as instituições?
Manuel Castells - A política está sendo reinventada com
esses movimentos. Mas o resultado dessas tentativas de inovação depende de cada
país, cada contexto, das característica do movimento e do sistema político do
país. Eu nunca ofereço soluções. Meu trabalho é investigar. E me atreveria
ainda menos em dar soluções a um país como o Brasil, que conheço
superficialmente, ainda que tenha visitado o país umas 20 vezes nos últimos 45
anos. Posso dizer só isto: quanto mais receptividade do sistema político à
expressão popular espontânea, nas redes e nas ruas, mais possibilidade haverá
de uma reforma política construtiva. Nesse sentido, o Brasil, pelo menos no
topo do poder político, se encontra melhor situado que outros países.
ÉPOCA - No seu livro
A Galáxia da Internet, senhor faz uma referência à reflexão de McLuhan em A
galáxia de Gutenberg (1962). Como o senhor compara esses dois momentos da
corrida tecnológica?
Manuel Castells - Citar McLuhan é um sinal de respeito a um
grande estudioso da comunicação e a uma tradição teórica. Ao mesmo tempo, é uma
tentativa de estabelecer uma distância entre dois sistemas de comunicação
radicalmente diferentes. McLuhan teorizou a comunicação de massa. Eu
investiguei a autocomunicação de massa. A comunciação de massa é um mundo de
comunicação vertical, unidirecional com interatividade escassa, com uma
mensagem determinada, controlada pelos meios de comunicação – e por poderes
econômicos e políticos. É diferente da autocomunicação de massa, da internet e
das plataformas móveis e sociais, que é multidirecional, interativa, os
emissores de mensagens são também receptores de mensagens, o tempo pode ser
simultâneo ou não, é local e global simultaneamente. A autocomunicação de massa
se refere o tempo todo ao hipertexto, onde está conservada toda as informações.
Vivemos hoje em duas galáxias diferentes ao mesmo tempo: a dos meios de
comunicação de massa tradicionais e o dos novos meios digitais. Os meios
tradicionais não desapareceram, mas tiveram de se reinventar e se articular à
galáxia da internet – e não esta a eles.
ÉPOCA - É o fim dos
meios de comunicação de massa tradicionais?
Manuel Castells - Não. O que acontece é que os meios de
comunicação tradicionais estão se enriquecendo com a interatividade
proporcionada pelos novos meios digitais. O resultado é a transformação das
salas de redação das revistas e jornais em uma sala de informação contínua por
internet. E, por conseguinte, o tipo de produto tem que mudar, já que não pode
competir com a velocidade da internet. Grandes organizações mundiais de
comunicação, como a Globo, trabalham em diversas plataformas simultaneamente e
captam recursos em publicidade privada e pública. E, assim, esses grupos têm
evitado tornarem-se deficitários.
ÉPOCA - Uma de suas
frases famosas está em A galáxia da internet: "A rede é a mensagem”. É quase
uma paródia à grande frase de McLuhan, "o meio é a mensagem”. É uma provocação?
Manuel Castells - Na realidade, a comparação entre as duas
frases é um pouco forçada. A minha não é uma expressão conceitual, mas
midiática, para sublinhar as diferenças. McLuhan queria dizer que a forma de
comunicar a mensagem não era a única coisa importante, mas condicionava essa
mensagem. Assim, uma mensagem pela televisão precisa comunicar coisas
diferentes que uma mensagem veiculada na imprensa ou no livro. É a transmissão
de informação que se converte em sentido. Agora, quando digo "a rede é a
mensagem”, quero dizer que a centralidade dos novos sistemas de comunicação não
está necessariamente na mensagem, em cada mensagem, mas na constante
interatividade entre todas as mensagens, todos os receptores e emissores da
mensagem. É a complexidade da rede que organiza múltiplas mensagens em um
sistema de relação de uns com outros. Cria, assim, a metamensagem – a união de
todas as mensagens por meio da interação.
ÉPOCA - Mas a rede
pode ser definida como meio de comunicação?
Manuel Castells - Não só, porque a rede é muito mais que um
meio de comunicação. É um meio de interação pessoal, de organização, de relação
à distância e um meio no qual a vida pessoal é integrada. A vida na rede não é
uma vida separada da interação física. Não vivemos mais em um mundo físico ou
virtual, mas num mundo híbrido. Todos estamos na rede, mas todos não estamos só
na rede. Nas redes sociais, as identidades se expressam. Em alguns casos elas
estão proibidas. Isso aconteceu sobretudo no início da interenet, quando os
adolescentes se interrelacionaram digitalmente e não estabeleceram identidades.
Porque adolescentes não possuem uma identididade definida nem na rede nem fora
da rede. Hoje, as identidades estão na rede porque a vida das pessoas está ali.
Para fazer amigos e ampliar seu círculo, as pessoas têm que colocar suas fotos
e expressar suas mensagens. A rede não é apenas um meio de comunicação. É um
modo de vida. Toda a sociedade está na rede.
ÉPOCA - É o que o
senhor chama de o novo espaço público?
Manuel Castells - Sim. O novo espaço público se articula na
intersecção entre o físico e o virtual. Vivemos em um mundo de virtualidade
real, não de realidade virtual. A virtualidade faz parte essencial de nossas
vidas. Não podemos pensar em nossas vidas fora da rede. A comunicação é o
centro da vida. O mais importante é que a rede é realidade essencial.
ÉPOCA - Mas para os
mais velhos essa realidade de Twitter, Facebook etc. não parece tão essencial.
Manuel Castells - Mas esse problema se soluciona tão logo as
velhas gerações desapareçam. Estamos em uma transição muito rápida. Tudo vai se
transformar ao longo deste século. Neste momento temos 3 bilhões de usuários de
internet. Há 6,8 bilhões de números de dispositivos de comunicação móvel, como
telefones celulares, e a única divisão real em termos de acesso e não de
qualidade é a idade dos usuários. Na América Latina, a taxa de cobertura de
celular é de 90%. No Brasi, 92%. A partir das redes móveis e das plataformas de
internet, a densidade de interação vai se saturar. Corresponde ao que foi a
televisão no passado. Há pouquíssimos lugares em que a internet não chega. A
comparação é com a eletricidade. Não podemos entender a era industrial sem a
eletricidade. Agora, em nosso tipo de sociedade de informação em rede, a
infraestrutura básica de tudo o que fazemos está nas redes móveis e na
internet. Estamos neste mundo. Não se trata de uma escolha. A gente não pode
decidir se a internet é boa ou má como não podemos decidir se queremos estar no
mundo da eletricidade ou não. É a nossa realidade.
ÉPOCA - Mas de que
forma a vida física se articula à rede?
Manuel Castells - Cada um faz do seu jeito, em função de
seus interesses, seus valores, sua experiência, de sua capacidade de utilizar a
rede. Portanto, as redes são múltiplas e maleáveis. E os mais jovens têm mais
vantagens nesse processo de adaptação. Isso porque eles já nasceram dentro de
uma cultura digital. Não é uma questão de capacidade tecnológica, e sim de
cultura e mentalidade. É uma questão de pensar de forma diferente.
ÉPOCA - Como o senhor
vê os jovens fazendo várias coisas ao mesmo tempo: vendo televisão enquanto
mexem nos tablets, tuitam e postam mensagens no Facebook, enquanto batem papo?
Manuel Castells - A multitarefa é um problema para pessoas
com mais de 40 anos. É algo complicado, porque o sujeito tem de fazer várias
coisas ao mesmo tempo. Mas os jovens fazem isso ao mesmo tempo. É a prática
normal.
ÉPOCA - Para mim
parece um caso de multidesatenção...
Manuel Castells - Não. Eles operam em um registro de
múltipla atenção. Nos acostumamos à ideia de que, quando fazíamos muitas coisas
ao mesmo tempo, não prestávamos atenção em nenhum, não é mesmo? Pois hoje não é
assim. Meus alunos, por exemplo, prestam atenção a várias coisas ao mesmo
tempo. E quando interajo com eles, eles mostram que prestaram atenção em tudo.
Hà estudos que mostram que nossa atenção é menos intensas quando estamos
submetidos a várias fontes de comunicação. E, portanto, a tendência é memorizar
menos. Porém, por outro lado, a multitarefa permite simultaneamente processar
sinais diferentes de informação e recombiná-los. A recombinação é a base da
criatividade, enquanto a memorização é a base da reprodução, intelectual e
cultural.
ÉPOCA - Qual o fator
decisivo para lidar com o conhecimento no mundo atual?
Manuel Castells - O fator decisivo é a capacidade de criar e
inovar. Porque a gente não precisa memorizar a informação porque ela está na
internet. Hoje em dia, um de meus estudantes, Martin Hilbert, concluiu o
doutorado em Los Angeles, publicou um artigo na revista Science, sobre o
cálculo que ele fez de toda a informação digitalizada disponível no planeta e
como está organizada. Ele calculou que, há dez anos, era de 52% de toda a
informação da Terra. Em 2008, era 97%. A informação está digitalizada e
disponível na internet O que nos faz falta não é tanto memorizar essa informação,
mas de possuir a capacidade mental de saber o que queremos, buscar o que
queremos e recombinar isso e produzir um tipo de conhecimento inovador que
precisamos. É um tipo de capacidade mental que não faz parte do ensino
tradicional e não é a atenção, mas a capacidade de inovar.
ÉPOCA - A informação
excessiva não gera um distúrbio de atenção e provoca, no fim das contas,
amnésia, como disse Umberto Eco?
Manuel Castells - Umberto Eco não é um neurocientista e não
tem condições de fazer essa firmação. Ele precisaria mostrar experiências
científicas e não falar do que se passa em um bate-papo de café. Eco professa o
mito da informação excessiva. Se vou à biblioteca da Universidade de Barcelona
e tenho 1 milhão de volumes e depois vou à de Berkeley e tenho 12 milhões, não
vou poder processar 1 ou 12 milhões de volumes. Mas vou ter muito mais
possibilidade de encontrar o que procuro se há 12 milhões em vez de 1 milhão.
Não existe informação demais, o que existe é demasiada incapacidade de buscar e
processar a informação. É simples: a informação não pode ser encontrada se não
sabemos o que procuramos. As pessoas navegam na internet para buscar algo
específico, mesmo quando é por pura diversão. O fundamental na sociedade de
informação é a capacidade instalada de passar da informação ao conhecimento – e
o conhecimento, à aplicação dos conhecimento, aos projetos pessoais ou
profissionais que tenhamos. O caos se produz quando você não sabe o que
procura. Quando você sabe, basta organizar o caos.
ÉPOCA - Os
intelectuais literatos como Umberto Eco estão em crise?
Manuel Castells - Estão desaparecendo. O que ocorre é que a
maioria dos intelectuais odeia a internet. Isso porque eles perderam o posto
que tinham antes, o mesmo que aconteceu com os meios de comunicação. Os
intelectuais eram os oráculos, eles detinham o monopólio da mensagem. Hoje não
há mais isso. Nas redes sociais, as pessoas não falam dos intelectuais, e se
fala deles tratam de contradizê-los. Aconteceu uma democratização fundamental
da emissão da mensagem. Cada um tem a sua mensagem. Cada bloco é sua própria
obra. Cada canal do YouTube é o seu próprio canal de televisão. É normal que a
elite aristocrática intelectual se encontrem maciçamente contra a internet. Primeiro
porque não a conhecem. Segundo porque, em muitos casos, nem as usam. Falam a
partir da ignorância, não do conhecimento.
ÉPOCA - Por que se
produz esse fenômeno de democratização dos conteúdos culturais?
Manuel Castells - É algo óbvio. É o que acontece com as
empresas de música ou de cinema. Elas estão aterrorizadas porque as pessoas não
compram mais nada. Procuram o que querem na internet e descarregam o material
sem pagar copyright. Quando as empresas facilitam a vida dos usuários, então os
usuários pagam Não vão mais comprar um disco inteiro, e sim uma faixa. E isso o
iTunes fez muito bem. O CD foi uma imposição do monopólio das empresas de
música. Assim, esse tipo de empresa está contra a internet. Mas não sabem como
controlar a circulação dos conteúdos porque não há como controlar.
ÉPOCA - O senhor não
se considera um intelectual?
Manuel Castells - Não. Eu sou um pesquisador. Eu procuro fundamentar o que digo com base na observação. Isso é muito diferente de um intelectual. Claro, todo mundo tem capacidade intelectual. Há dois tipos de intelectuais: todos os trabalhadores intelectuais, e nesse grupo incluo os jornalistas e pesquisadores, e O Intelectual, uma tradição que nasceu na França e está desaparecendo rapidamente. Aqueles que assinam os manifestos, o intelectual público. Eles influenciou muito a vida na América Latina, onde os intelectuais públicos foram a referência. E tiveram o privilégio de fazê-lo sem a obrigação de pertencer a partidos, ser ricos ou empregados em uma empresa. Esse tipo de intelectual poderia dizer qualquer bobagem que, como intelectual público, as pessoas o escutavam. Esse privilégio acabou. Porque hoje, tão logo alguém diz alguma coisa, as redes sociais expõem isso e mostram as coerências ou incoerências da afirmação. Hoje o que dizem não é mais um oráculo, pois se transformou em um objeto processado. O intelectual público tem um futuro tão brilhante quanto o da aristocracia ateniense.