Mulheres são as reféns da imobilidade urbana

19/02/2018 07:15 - Jornal do Commercio - PE

ROBERTA SOARES - BLOG 'DE OLHO NO TRÂNSITO'

A mobilidade urbana não está fácil para ninguém e isso não é novidade. Todos sofrem. Sejam passageiros do transporte público, pedestres, ciclistas ou motoristas de carro. Mas a situação, acreditem, é ainda pior para mulheres e crianças. São elas, principalmente as mulheres que são mães, que enfrentam desafios maiores para exercer o direito à cidade. Sofrem mais do que os homens, por exemplo, quando o serviço de ônibus ou metrô não é eficiente, quando falta iluminação nas ruas, com a ausência de infraestrutura cicloviária ou quando as calçadas são substituídas por matagais e muros de dois metros de altura. Tudo porque o medo da violência – principalmente a sexual – é dominante, preponderante. É limitador e desestimulador para a mobilidade delas.

Queríamos mostrar o quanto as cidades estão atrasadas no planejamento da mobilidade urbana a partir do gênero. Os sistemas ainda são pensados considerando o homem e esquecendo as necessidades das mulheres. E restringimos o recorte às negras porque são elas que habitam as periferias. As mulheres brancas, em sua maioria, usam o carro e estão em bairros com maior infraestrutura”,

Letícia Bortolon, do ITDP

E a situação é ainda pior quando observamos a mobilidade urbana sob a ótica das mulheres negras, que habitam nossas periferias e lidam, diariamente, com a falta de tudo e a presença permanente do medo. Essa constatação está no estudo “O Acesso de Mulheres e Crianças à Cidade”, o primeiro que retrata a relação entre mobilidade urbana e gênero realizado pelo Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP). Trabalho executado pioneiramente na Região Metropolitana do Recife, com um grupo de 50 mulheres negras, chefes de família, que têm renda de até dois salários mínimos, muitas delas mães, e que não possuem carro. Um recorte real da realidade do Grande Recife, onde, segundo o IBGE, 59% do total de mulheres são negras.

“Queríamos mostrar o quanto as cidades estão atrasadas no planejamento da mobilidade urbana a partir do gênero. Os sistemas ainda são pensados considerando o homem e esquecendo as necessidades das mulheres. E restringimos o recorte às negras porque são elas que habitam as periferias. As mulheres brancas, em sua maioria, usam o carro e estão em bairros com maior infraestrutura”, explica Letícia Bortolon, coordenadora de políticas públicas do ITDP e responsável pelo estudo. 

O medo da violência é o ponto principal da impressão feminina sobre a mobilidade urbana. Por causa dele elas deixam de sair de casa, abrem mão do lazer e até do trabalho. Mudam rotas e até roupas. “É o assunto que pontua todos os assuntos. Por isso é preciso um olhar diferenciado sobre a oferta de serviços de mobilidade a partir da mulher”, destaca Letícia Bortolon. No estudo foram analisadas as percepções das mulheres negras sobre o transporte público, a mobilidade a pé, de bicicleta e a segurança viária, considerando a violência e o assédio sexual, a habitação e a infraestrutura urbana.

Por causa do medo as mulheres deixam de sair de casa, abrem mão do lazer e até do trabalho. Mudam rotas e até roupas. É o assunto que pontua todos os assuntos. Por isso é preciso um olhar diferenciado sobre a oferta de serviços de mobilidade a partir da mulher”,

Letícia Bortolon

O resultado, claro, foi o pior possível. Para o grupo entrevistado, há muitos fatores limitadores para se mover na cidade e, assim, vivê-la. A violência, a má qualidade dos serviços, a carência de equipamentos públicos, a ausência de cidadania e a falta de oportunidades para a camada mais pobre da população são mencionadas espontaneamente por todas as participantes, independente da idade ou do local de moradia. “Na vida cotidiana essas mulheres saem de casa com medo, circulam pelo bairro e pela cidade com medo e voltam para casa com medo”, pontua a coordenadora, reproduzindo conclusões do estudo.

Passageiras fieis do transporte público – seja por ônibus ou metrô –, as mulheres negras veem o assédio sexual como algo incorporado ao serviço. É via de regra passar ou presenciar situações do tipo nos coletivos e vagões. As paradas de ônibus merecem uma atenção à parte no estudo. São os locais onde elas sentem mais medo, principalmente do estupro. O isolamento e a falta de movimento, associados ao tempo de espera dos ônibus, potencializam o temor. Como utopia, está a bicicleta – vista por elas como um excelente e desejável meio de transporte, mas inviável pela falta de infraestrutura nas vias, ainda mais da periferia.

SEMPRE COM MEDO
A diarista e artesã Tatiane Santos, de 35 anos, compreende bem as percepções do estudo do ITDP. Sente na pele e na alma, todos os dias, as dificuldades de mobilidade enfrentadas pelas mulheres que foram referência na pesquisa. Assim como elas, é negra, mãe, chefe de família e vive na periferia – no Passarinho, bairro da Zona Norte do Recife carente de tudo um pouco. “O medo domina e controla tudo. Vivemos assustadas. Quando saio para trabalhar, espero apenas o dia clarear. Visto a roupa mais feia que possuo, prendo o cabelo e tiro até os brincos para tentar passar desapercebida pelos lugares. O caminho mais perto para chegar ao ônibus, é o mais perigoso. Não temos opção”, diz.

POR MAIS OPÇÕES

Assim como Tatiane, Edcleia Santos, 60 anos, diarista e líder feminina, sofre diariamente com a privação de mobilidade. Também moradora do Passarinho, confessa que já abriu mão de sair de casa para se divertir, por exemplo, devido à falta de transporte público. “Assim como eu, todas as mulheres que vivem na periferia sofrem. A pouca oferta de ônibus, a falta de iluminação das ruas e o abandono das paradas são o pior. Para termos mais segurança, muitas vezes gastamos mais dinheiro com o transporte. E por morarmos longe dos empregos, essa despesa quase sempre é pesada demais. Precisamos de mais linhas e de caminhos mais iluminados”, apela.