A percepção do porto-alegrense de que o transporte público
se apequenou, com tarifa alta, serviço insuficiente e falta de qualidade, é
confirmada pela exatidão indesmentível dos números. A começar pelo bolso de
quem paga para andar de ônibus. A Capital pratica o segundo bilhete mais caro
do país — há 10 anos oscilava entre a 12ª e a 14ª posição.
Não foi sem propósito que Porto Alegre efervesceu como o
embrião dos protestos que eclodiram pelo Brasil contra a tarifa do transporte
coletivo. Durante a vigência do real como moeda, de 1994 até o ano passado, a
passagem de ônibus subiu duas vezes mais que a inflação. Foram 670,27% em
tarifaços, enquanto o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em
299,61%.
Tarifa exagerada não significou, como se poderia imaginar,
melhoria no atendimento. Dados da própria Empresa Pública de Transporte e Circulação
(EPTC) apontam que cresceu o descontentamento dos passageiros. O total de
reclamações, sobre os mais variados motivos, pulou de 7,9 mil (em 2004) para
20,2 mil (2011). O estrilo é mais alarmante naquilo que inferniza a vida do
usuário — a superlotação, o descumprimento de horários e os atrasos nas
viagens. Em 2011, mais de 7,9 mil se queixaram destes itens, em um aumento de
430% em relação a 2004.
O que acontece em Porto Alegre não é isolado. O professor de
Engenharia da Universidade de Brasília (UnB) Joaquim José de Aragão lamenta que
a mobilidade urbana nunca frequentou a agenda dos governantes. Não como
deveria. Diante da inépcia das autoridades, Aragão diz que os empresários
assumiram o controle.
— Começaram a tomar o poder, a ponto de se tornarem
planejadores. E, para eles, transporte bom é com ônibus cheio, e o passageiro
que se vire — critica.
Outro indicativo da decadência no transporte público de
Porto Alegre é a queda no número de passageiros. Nos últimos 15 anos, houve uma
redução de 6,6 milhões de bilhetes, na média mensal. Em 1998, quando a Capital
tinha 1,3 milhão de habitantes, eram 25,9 milhões de passagens por mês. Em
2012, com 1,4 milhão de habitantes, o movimento caiu para 19,3 milhões.
Várias causas explicam o esvaziamento. Uma delas é a melhor
renda do brasileiro, que foi incentivado a comprar o automóvel ou a
motocicleta. Para o professor do Laboratório de Sistemas de Transportes
(Lastran) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) João Fortini
Albano, a motorização em massa gerou um desequilíbrio, o qual se refletiu na
alta das tarifas.
— A redução da demanda pode ser a maior causa do aumento na
passagem — observa Albano, lembrando que há menos clientes para ratear o custo
do bilhete.
Se carros e motos invadiram as ruas, a frota de ônibus não
acompanhou a expansão. Houve uma renovação — a idade média dos veículos é de
quatro anos —, mas não a ampliação da oferta de assentos.
Mas como fazer com que as pessoas deixem o carro na garagem
e peguem o ônibus? O diretor presidente da EPTC, Vanderlei Cappellari, diz que
a estratégia é o investimento em outros tipos de transporte. A grande aposta é
o projeto do metrô, de 25,8 quilômetros de extensão, que ligaria o Centro à
Zona Norte.
Outra é o sistema BRT (na sigla em inglês, transporte rápido
de ônibus). Em obras para a Copa de 2014, o BRT vai estender os atuais 55
quilômetros de corredores para 120 quilômetros. Na avaliação de Cappellari,
quando o complexo estiver interligado e operando, o porto-alegrense terá o
desejável para se mover.
12 minutos de
trabalho por bilhete
O porto-alegrense precisa trabalhar oito vezes mais do que o
morador de Buenos Aires para comprar um bilhete de ônibus. Levando-se em conta
o salário médio na Capital (R$ 2.983,20, estipulados pelo IBGE) e o preço da
tarifa, terá de suar exatos 12 minutos e sete segundos se quiser andar no
transporte coletivo. Para os portenhos, é um minuto e quatro segundos.
Quem calculou o quanto se deve trabalhar para pegar um
ônibus, em diferentes cidades, é o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV)
Samy Dana. Feito em parceria com o economista Leonardo de Siqueira Lima, o
estudo se baseia no salário médio dos habitantes de uma metrópole e no custo da
tarifa. Resultado: os brasileiros ganham menos e dispõem de um dos transportes
públicos mais caros do planeta.
— É estranho, mas aqui tudo é muito caro, sem falar que a
qualidade é ruim — diz Samy.
Pelo levantamento da FGV, o morador de Porto Alegre precisa
fazer o dobro de esforço que um usuário de Paris e Nova York para comprar um
bilhete. E, no momento de usufruir o serviço, entrará num veículo menos
confortável, que nem sempre cumpre o horário e pode chegar atrasado ao destino.
Além de não receber a mínima informação sobre tempo de espera na parada de
passageiros.
— Para o nosso azar, além de perdermos em quantidade,
pagamos por algo que não temos: um serviço de qualidade — lamenta.
Samy entende que é o momento de se avaliar o lucro das
empresas. Em Porto Alegre, hoje, corresponde a 6,33% da tarifa. O professor da
FGV diz que é função do governo coibir abusos. Tarefa difícil, porque
determinados empresários do setor costumam financiar campanhas eleitorais de
políticos, que depois retribuem deixando tudo como está.
— O lucro Brasil terá de ser repensado. As empresas devem
ganhar de forma coerente — alerta Samy.
Tarifa cara e um transporte deficiente empurram a população
para o automóvel ou para a motocicleta. A equação é inevitável, para o
professor da FGV:
— As pessoas calculam o tempo que perdem na parada de ônibus
e nos deslocamentos. Acabam optando pelo transporte privado.
A migração, que entope as cidades com engarrafamentos, é
incentivada justamente por quem deveria gerenciar o transporte público.
Professor de gestão em urbanismo na Pontifícia Universidade Católica do Paraná
(PUCPR), Carlos Hardt ressalva que houve um "aumento desproporcional"
na frota de carros e motos a partir do governo Lula.
— Muitas pessoas, com a aquisição do seu primeiro veículo,
passaram a utilizá-lo cotidianamente — diz Hardt.
Os números provam. Em 2003, Porto Alegre tinha 432,4 mil
carros e 36,2 mil motos. No ano passado, a frota saltou para 594,2 mil e 80,4
mil, respectivamente. Em menos de uma década, foram despejados nas ruas 206 mil
novos veículos particulares — 44% de aumento. Enquanto isso, no período, apenas
65 ônibus foram acrescentados à malha pública.
SAIBA MAIS
O professor da Fundação Getúlio Vargas Samy Dana calculou os
minutos que o usuário precisa trabalhar para pagar a tarifa em diferentes
cidades. O levantamento é em parceria com o economista Leonardo de Siqueira
Lima, da FGV.
São Paulo— 12,8 minutos trabalhados
Porto Alegre — 12,7 minutos trabalhados
Rio de Janeiro — 12 minutos trabalhados
Florianópolis — 11,8 minutos trabalhados
Londres — 11 minutos trabalhados
Lisboa — 9,9 minutos trabalhados
Santiago do Chile — 9,1 minutos trabalhados
Tóquio — 9 minutos trabalhados
Madri — 6,5 minutos trabalhados
Nova York — 6,3 minutos trabalhados
Paris — 6,2 minutos trabalhados
Ottawa — 5,8 minutos trabalhados
Buenos Aires — 1,4 minutos trabalhados
Zero Hora acompanha o
suplício dos passageiros de ônibus no horário de pico
Superlotado, transporte público de Porto Alegre irrita usuários pela
manhã e no fim da tarde
O início da manhã no
Rápida Rubem Berta: queixas e desconforto na zona norte da Capital / Foto:
Félix Zucco / Agencia RBS
Você mesmo, se eventualmente pega ônibus, já deve ter sido
obrigado a ficar em pé — mas Ricardo Löff, 40 anos, nunca, em nenhum minuto dos
últimos 12 anos, conseguiu se sentar no ônibus.
O banco estofado é como o cume do Everest para Ricardo, que
sai de casa às 7h, enfrenta por meia hora a superlotada linha Rápida Rubem
Berta, passa o dia carregando e descarregando bagagens no aeroporto Salgado
Filho e, no fim da tarde, retorna pelo mesmo Rápida Rubem Berta sem qualquer
esperança de assento.
— Deveria ter desconto para quem viaja em pé — lamenta ele,
espremido por passageiros que concordam com a cabeça.
Em questão de minutos, enquanto o veículo atravessa a zona
norte da Capital, a história de Ricardo não espanta mais.
— Eu também, moço, nunca me sentei nem por um segundinho —
diz a vendedora Judite de Souza, 56 anos, usuária da linha há sete anos.
Seria o Rápida Rubem Berta, do consórcio Conorte, o pior
ônibus da cidade? Longe disso. Para se ter uma ideia, passageiros colocaram um
apelido sugestivo no T11, linha da Carris inaugurada com entusiasmo em 2006 por
cortar Porto Alegre de norte a sul: Minhocão do Horror. A partir das 17h, você
acomoda o pé no primeiro degrau da entrada e entende por quê. O minhocão cospe
gente, avisa o motorista com a expressão aflita.
Boa parte da frota do T11 é formada por veículos
articulados, com o dobro do comprimento dos ônibus normais. Ainda assim, as
pessoas se amontoam como frangos em um caminhão de carga fora da lei. Muitos
descem pela porta de entrada, não pagam passagem, porque é impraticável
caminhar míseros três metros para alcançar a catraca. No meio da multidão, a
empregada doméstica Terezinha Lopes da Silva, 63 anos, se equilibra com habilidade
entre os cotovelos.
— A senhora tem mais de 60 anos, tem o direito de viajar
sentada — observa o repórter.
— Mas ninguém cede o lugar. Ali atrás, pode ver, tem uma
moça sentada com um menininho no assento ao lado. É só botar o filho no colo —
ela balança a cabeça em reprovação.
Aliás, todos sentados ali parecem ter menos de 60 anos. E
todos fingem não ouvir dona Terezinha, que deixa o trabalho no bairro
Petrópolis às 17h para chegar em casa, na Restinga, às 19h45min. Demora muito
porque ela pegará outro ônibus logo adiante, o Restinga Velha, mais um que
entope na hora do rush. Zero Hora escolheu justamente a hora do pico para
testar uma série de linhas da Capital — algumas funcionam bem em outros
horários, mas poucas funcionam bem no horário que mais importa.
No Restinga Nova, do consórcio STS, por exemplo, é comum os
passageiros orientarem o motorista sobre quando fechar a porta traseira: é
tanta gente dependurada nas barras de metal que nem o cobrador consegue
enxergá-la. Não faz muito tempo, conta o segurança Jones Augusto Meira, 50
anos, um rapaz ficou preso quando a porta lhe fechou no peito às 18h30min. Sem
saber o que ocorria lá atrás, o motorista arrancou com o garoto de cabeça para
fora e meio corpo para dentro — o braço de dentro batia no vidro em desespero,
mas o ônibus foi acelerando, as pessoas gritando para o motorista brecar, e no
fim o rapaz saiu ileso.
— A gente fica tão colado um no outro que, vou te contar,
quando alguém vai embora chega a dar saudade — brinca o instalador de móveis
Marcos Cardoso, 42 anos.
Das periferias ao centro da cidade, não há público imune às
célebres latas de sardinha. No D43, a linha "universitária direta" da
Carris, a jovem classe média da Capital aparece empilhada entre casacos de
grife e cabelos da moda. A partir das 7h20min, na Avenida Osvaldo Aranha, o D43
recolhe aos borbotões estudantes da PUC e do Campus do Vale da UFRGS, cujas
aulas começam em pouco mais de meia hora. Danielle Rosa de Almeida, 19 anos,
ingressa de tênis no ônibus, mas leva na bolsa o sapato de salto.
— Não dá para ficar de salto no ônibus, é desconfortável
demais. Quando estou chegando à faculdade, a maioria das pessoas já desceu,
então posso me sentar e fazer a troca — ela conta.
De norte a sul, de ricos a pobres, não há distinção alguma: a superlotação é democrática em Porto Alegre.
D43, a linha
universitária: aperto rumo à PUC e ao Campus do Vale da UFRGS Foto: Paulo Germano