11/05/2014 10:30 - O Globo
RIO - "Ai, que delícia!" A expressão da passageira
sentada no fundo do ônibus é um misto de brincadeira e alívio. A freada brusca
do motorista evitou, segundos antes, uma batida com o veículo logo à frente.
Dentro do 315 (Central-Recreio), os passageiros sabem que uma pequena colisão,
em plena Avenida Brasil, seria o suficiente para atrasar seus compromissos. Há
uma espécie de torcida para que o trânsito ajude. Quando isso acontece, o 315
"anda bem". Normalmente presos em congestionamentos pela cidade, os
motoristas de ônibus do Rio, quando podem, pisam fundo, mesmo atropelando a
legislação.
Pela primeira vez, um mapeamento feito pelo GLOBO, a partir
da base do DataRio, que recebe as informações geradas on-line pelos GPS dos
ônibus, permite conhecer o comportamento geral desses veículos. E há dados que
demonstram como eles burlam as regras de trânsito. Em uma semana de abril, mais
de 500 veículos (6,6% dos ônibus que estavam no banco de dados) registraram
velocidade acima de 90km/h. Ou seja, cerca de 37% das 498 linhas identificadas
na base tinham algum registro com essa velocidade. A 315, que passa pela Linha
Amarela, liderou com mais de 18% dos casos. Em seguida ficou a 557 (Rio das
Pedras-Copacabana), com 12,6% dos registros. Esse ônibus circula por vias como
Avenida Vieira Souto, em Ipanema, e Delfim Moreira, no Leblon.
Na quarta-feira passada, uma equipe de reportagem fez a
prova dos noves. Embarcou no 315 na Central do Brasil e seguiu até a Barra. Sem
cinto de segurança, o motorista, que usava um fone de ouvido, teve que se
segurar na lixeira do veículo quando precisou frear para não bater no carro que
ia logo à frente. No momento da freada, estava a 70km/h. Na Linha Amarela,
quando pôde, andou a 90km/h. É possível ver no mapa produzido com o uso dos
dados dos GPS vários pontos em que ônibus trafegam acima de 90km/h, como na
Avenida Brasil, no Aterro do Flamengo e, principalmente, na Linha Amarela, onde
a situação é mais crítica.
- Na semana passada, peguei um ônibus desta linha à noite,
em frente ao Via Parque, na Barra. Contei no relógio. Em 15 minutos, o
motorista chegou à Avenida Brasil, na altura da Fiocruz, onde desci. Tive muito
medo - conta Simone Nascimento, de 38 anos.
No geral, a velocidade média dos ônibus em toda a cidade é
de 34km/h, valor que reflete o grau de congestionamentos e as característica
desse tipo de transporte, com as suas inúmeras paradas. Mas esse número chega a
subir até 20% durante a madrugada. Nos fins de semana, o aumento chega a 12%.
As médias, porém, escondem outro desrespeito à legislação. Com base numa
resolução municipal de 2011, que limita a velocidade dos ônibus a 50km/h, é
possível saber que mais de 90% das linhas apresentaram ao menos um registro
acima desse limite.
Embora nesse grupo estejam veículos que trafegam nos 14
trechos nos quais a regra da prefeitura não vale, como vias expressas (linhas
Amarela e Vermelha, Avenida Brasil, Aterro do Flamengo), além de túneis, no
mapa é possível observar registros de linhas acima de 50km/h na maioria das
ruas onde a resolução municipal deveria ser respeitada.
O GLOBO foi a algumas ruas checar a velocidade dos ônibus.
Com a ajuda de um engenheiro de trânsito e um radar móvel, a equipe flagrou na
Avenida Brasil, em uma hora, seis coletivos acima da velocidade permitida na
via, que é de 80km/h. No Aterro, na altura do Morro da Viúva, sete em cada dez
ônibus que seguiam no sentido Centro passaram acima do limite de 70km/h. Na
Avenida Rui Barbosa, também no Flamengo, vários veículos registraram
velocidades acima de 50km/h.
Um motorista da linha 301 (Rodoviária-Avenida das Américas)
conta que conhece a legislação dos 50km/h, mas diz ser impossível cumprir a
regra.
- Fiz um curso de treinamento, e lá explicaram que o limite
é 50km/h. Mas é impossível andar nessa velocidade. É muito baixa. Se eu
trafegar a 50km/h, não consigo cumprir meus horários - diz ele, que preferiu
não se identificar.
Dependendo da linha e do trecho percorrido pelos ônibus, há
pressão também dos passageiros para que os motoristas acelerem. Elisângela dos
Santos Vargas, de 41 anos, não considera que os ônibus que fazem o trajeto
Barra-Lagoa trafeguem em alta velocidade. Como o trecho é bastante
congestionado, ela diz que perde muito tempo no trânsito:
- Quase sempre está engarrafado. Queremos chegar ao trabalho
no horário. Por mim, o motorista poderia acelerar um pouco mais. Mas não é
possível. Para mim, a velocidade não é o problema, mas sim a superlotação.
O presidente do Sindicato das Empresas de Ônibus do Rio (Rio
Ônibus), Lélis Teixeira, diz que as empresas têm investido em treinamento e
controle. A instalação do GPS e de sistemas que limitam a velocidade é uma
dessas medidas. Ele contou que os veículos fazem 1,3 milhão de viagens na cidade
do Rio por mês e que as informações obtidas pelo GLOBO precisam ser analisadas:
- É importante ressaltar que os ônibus têm tacógrafos que
registram com maior precisão essas informações, e todas as empresas acompanham
isso diariamente. Além disso, os veículos têm um mecanismo que limita a
velocidade. Se há excessos, vamos corrigir. Temos investido muito em formação e
controle e queremos que a sociedade nos ajude. Criamos o site e o aplicativo
"nopontocerto", pelo qual qualquer pessoa pode ajudar, informando
problemas com os ônibus.
A Secretaria municipal de Transportes informou que as vias
identificadas pela reportagem com velocidades acima de 50km/h ou aquelas com
limites maiores têm pardais eletrônicos. Em 2013, segundo o órgão, foram
aplicadas mais de 25 mil multas a ônibus por excesso de velocidade. O órgão
informou que vai notificar os consórcios para reforçar a obrigatoriedade de se
respeitar a velocidade máxima. Afirmou ainda que o decreto que obriga 18 mil
motoristas a passarem por cursos de treinamento já foi cumprido por 11 mil
profissionais.
Falta de treino
Para Alexandre Rojas, professor da Uerj e especialista em
transportes, o desrespeito à legislação municipal flagrado entre os motoristas
de ônibus está ligado à falta de treinamento dos profissionais, além das
pressões que sofrem para cumprir os horários, por parte das empresas e dos
próprios passageiros. Rojas explica que o excesso de velocidade em algumas vias
reflete um comportamento que tem sido comum entre motoristas de ônibus:
— Os ônibus, pela natureza do trabalho do transporte
público, param muito. Muitas vezes, estão também presos nos congestionamentos.
Mas a sua velocidade média é de 34km/h, muito próxima da dos demais veículos,
que não param para pegar passageiros. Como os ônibus conseguem isso? Exatamente
como os dados da reportagem indicam. Quando há qualquer possibilidade de pista
livre, os motoristas tendem a correr para compensar a perda de tempo. Isso faz
a média subir e, como constatado, um aumento do número de veículos que descumprem
a legislação.
Na avaliação do professor, a criação das faixas
preferenciais para ônibus (BRS) e do BRT ajuda a explicar o registro de pontos
de velocidades acima das permitidas em algumas vias. Mesmo com os pardais
eletrônicos, motoristas tendem a acelerar após passar por esses equipamentos:
— Esses sistemas liberaram o tráfego para os ônibus e isso, possivelmente, traz impacto. Os motoristas aceleram mais porque têm mais pistas para andar.
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