Rede aérea de eletricidade e telecomunicações prejudica a paisagem e causa transtornos

25/08/2013 10:20 - Zero Hora - Porto Alegre

Foto: Ricardo Duarte / Agencia RBS

 

Cada vez mais fios atravessam o horizonte, mas parece até que ninguém se importa. O olhar urbano já se habituou ao emaranhado que polui a paisagem. E, quando algum cabo se rompe, fica difícil encontrar o fio da meada.

Neste mês, a Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) anunciou o desligamento programado do serviço na Rua Guadalajara para trocar um poste de madeira por um novo, de concreto. Após uma tarde inteira sem energia, a luz voltou, mas o telefone caiu.

Pela janela, o aposentado Nataniel de Jesus Santos, 77 anos, avistou os cabos rompidos. E ali começou a dor de cabeça do aposentado, que, mesmo carregando Jesus no nome, perdeu a estribeira – a CEEE informa que quem deve solicitar o conserto é o usuário, que assim precisa gastar o dedo no teclado e os créditos do celular no contato com a empresa de telefonia.

– Entra aquele menu: "se você quer falar com Deus, disque 1, se quer falar com o diabo, disque 2, se quer falar com um de nossos atendentes, disque 8”, e aí volta todo o menu. É de tirar a paciência – reclama Nataniel, que resolveu pedir ajuda ao Procon.

Se, com o serviço interrompido já é difícil, imagine quem se atreve a reclamar de um cabo abaixo da altura mínima – aumentando ainda mais a largura da teia de fios sobre a calçada. A psiquiatra Maria Inês Lobato tentou, mas a empresa respondeu só ter obrigação de fazer reparos no caso de o sinal ser interrompido. De fato, não há norma que obrigue a retirada nem mesmo de fios inativos. Assim, na imensa maioria das vezes, o consumidor encerra o contrato com a operadora, mas o cabo permanece no local, como um monumento à falta de regulamentação da paisagem urbana.

– As pessoas acham que isso é só uma questão de estética, mas o bem-estar que te dá abrir a janela do apartamento e ver a paisagem, em vez de ver aquele monte de fios, é muito importante – comenta a médica.

Incomodada com o descaso, Maria Inês saiu com a filha Beatriz, 13 anos, a caminhar e fazer fotos para postar em uma página criada no Facebook, com apoio dos sobrinhos Antônio Tovo, 30 anos, Mariana Goellner, 30 anos, ambos advogados, e Rafael Marques, 34 anos, arquiteto.

– Enterrar os fios teria impacto inclusive na recuperação da arquitetura, que ficaria mais valorizada, e seria fundamental para cumprir a norma de acessibilidade, aumentando o vão livre de circulação, com a retirada dos postes das calçadas – diz Rafael.

O objetivo do site é dar visibilidade ao problema e forçar as autoridades a pensarem em políticas que permitam o aterramento nas áreas de interesse cultural, aproveitando a realização de obras como as dos corredores de ônibus e das perimetrais.

Em São Paulo, uma iniciativa parecida chegou até o Ministério Público Federal, que abriu inquérito para apurar por que a cidade não enterra suas redes. Após uma onda de chuva no verão de 2011, que deixou um bairro inteiro sem luz por mais de uma semana, o jornalista Leão Serva passou a postar diariamente no Instagram fotos com a legenda "malditos fios”, que depois virou hashtag e se popularizou entre seus seguidores. Serva está preparando um livro de fotos com esse tema, que deve sair em novembro:

– Já tinha publicado um livro de fotos sobre o projeto Cidade Limpa, que foi quando São Paulo regulou a propaganda em outdoors. Isso mudou o visual da cidade, e os fios ficaram ainda mais visíveis. Então, as fotos dos malditos fios viraram um grito diário para que a limpeza da cidade continue.

É fácil perceber que a maldição dos fios não é exclusividade paulistana. Mas, curiosamente, a lei que tenta minimizar a poluição visual em Porto Alegre não contém uma linha sequer sobre a plasticidade da fiação.

O nó que se vê nos céus começa no setor público

O emaranhado que se vê sobre as calçadas se reproduz no poder público, a quem caberia o poder de mudar o cenário dos céus urbanos. A empresa de energia elétrica loca os postes para o cabeamento de operadores de telecomunicações, mas alega que a decisão de enterrar ou não as redes depende da administração pública.

– A rede subterrânea tem custo 10 vezes maior, e isso teria de ser repassado ao consumidor. Nenhuma empresa fará esse investimento. Isso só ocorrerá se partir da prefeitura, que poderia locar os dutos para as companhias – sugere o engenheiro do setor de distribuição da CEEE, Rubens Wawrick.

A teia de aparente desinteresse pela questão só aumenta. A Secretaria de Obras diz que apenas executa o que está no projeto e argumenta que o planejamento urbano compete à Secretaria de Urbanismo, que, por sua vez, atribui à Secretaria de Gestão a previsão de investimentos nesta área. Esta, por sua vez, delega à companhia de energia o poder de decidir sobre o tipo de rede a ser implantada. E, assim, fecha-se o ciclo, sem que ninguém assuma a frente da questão.

– Um projeto viário considera desde fatores ambientais até o tipo de rede, mas as diretrizes da Agência Nacional de Energia Elétrica e da própria CEEE não avançam para o sentido de enterrar a fiação, o que certamente representaria um ganho paisagístico imenso para a cidade – diz o engenheiro Rogério Baú, responsável pelas obras de mobilidade urbana da Capital.

Cidades da Serra enterraram as redes em pontos turísticos, como a Avenida Borges de Medeiros, no centro de Gramado. No caso de Antônio Prado, além da questão estética, havia o risco de incêndio pela proximidade da fiação com o casario de madeira, explica a arquiteta Anna Maria Hennes, que fez o projeto luminotécnico da obra:

– A viabilização desses projetos passa por uma negociação ampla, com governo e concessionárias. Contudo, como os investimentos são elevados, é importante haver critérios de escolha para áreas de maior relevância.

AÉREO OU SUBTERRÂNEO?

Especialistas apontam vantagens e desvantagens das redes sobre as calçadas ou abaixo da terra

Custo

O principal limitador para a substituição de redes aéreas por subterrâneas é o custo: enterrar a fiação custa 10 vezes mais. A solução para baratear seria um planejamento conjunto entre prefeitura, companhias de água e esgoto, energia elétrica, gás, telefonia e telecomunicações. Outros aspectos que encarecem o sistema subterrâneo são a exigência de mão de obra mais especializada e o tempo de implantação da rede, bem menor nas ligações aéreas.

Estética

A rede subterrânea tem menor interferência na paisagem, melhorando o aspecto visual da cidade. Há alternativas de redes aéreas (redes ecológicas ou compactas), com menor poluição visual.

Clima

Tempestades estão entre as principais causas de interrupção do fornecimento de energia e de telecomunicações. Os postes são frequentemente derrubados por vendavais e atingidos por árvores que ficam próximas à rede. Sem contar acidentes de trânsito, com colisões em postes ou veículos altos que arrastam a fiação. No caso das redes subterrâneas, esse problema seria anulado.

Distribuição

Não exposta às intempéries, a rede subterrânea sofreria menos problemas de  distribuição em relação às redes aéreas, ampliando a confiabilidade do serviço.

Manutenção

As redes subterrâneas demandam mais tempo de investigação para identificar a origem do problema em caso de desabastecimento. Na rede aérea, o local onde um cabo foi rompido fica visível, agilizando o conserto. Embora tenha menor frequência de interrupções, o tempo de desabastecimento tende a ser maior nas redes subterrâneas.

Podas

Em um ano, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam) recebe 2 mil pedidos para podas de galhos que interferem na rede. O agrônomo Sérgio Tomasini, diretor da Divisão de Parques, Praças e Jardins da Smam, reconhece que há dano ao vegetal, mas diz que tem de haver uma harmonização do equilíbrio ecológico com a manutenção dos serviços. Nos novos plantios, estão sendo evitadas árvores de grande porte.

Segurança

A rede aérea permite um pouco de sobrecarga, por períodos curtos, porque o contato com o ambiente resulta no resfriamento natural da fiação. A sobrecarga ocorre porque a companhia não tem domínio sobre a quantidade de aparelhos que o usuário conecta na rede ao mesmo tempo. Na rede subterrânea, isso é perigoso, pois pode levar ao superaquecimento dos transformadores, resultando em explosões.

Choques

O rompimento de cabos ou mesmo a energização de árvores e postes devido a problemas na rede representa risco à vida. Dados levantados pela Associação Brasileira das Distribuidoras de Energia Elétrica contabilizam 293 mortes por choque em 2012, sendo 32 delas por cabos energizados no solo. O risco de morte por esse tipo de descarga elétrica é anulado com a rede subterrânea.

 


 

Entenda o emaranhado de fios:

CONTRAPONTO

CEEE

Informa que o cliente deve reportar problemas diretamente à empresa responsável pelo cabo solto, inativo ou abaixo da altura regulamentar. Em casos de problemas com fios da rede, o cliente pode ligar para 0800 721 2333 ou acessar o atendimento online (www.ceee.com.br).

NET

Informa que realiza um trabalho constante de monitoramento e manutenção de cabos, identificando e recolhendo materiais não utilizados. Caso identifique irregularidades, o consumidor pode ligar para o 10621.

GVT

Informou que faz a retirada ou o realinhamento dos fios quando há cancelamentos. Disse ainda que monitora a rede permanentemente e mobiliza equipe para efetuar reparos quando é identificada ocorrência de fiação solta. O contato para solicitar reparo é pelo número 10325.

OI

Até o fechamento da edição, a assessoria de imprensa não retornou ao pedido feito pela reportagem.

É normal, ué!

Em 2008, decidi ganhar experiência fora do Brasil. Morei e trabalhei em Milão, na Itália, até 2012.

Uma das coisas que me chamaram a atenção por lá é que não existem postes para a passagem de fios na rua. Tudo – fiação elétrica, fibra ótica, telefone, cabos – passa por baixo da terra.

Na volta, uma das coisas que mais me salta aos olhos é não só a terrível poluição visual causada pelos fios, como o absurdo descaso à fiação esticada sobre os postes.

O incrível é que isso já faz parte do cotidiano do porto-alegrense. Pouca gente se dá conta da quantidade inacreditável de fios caindo no meio da rua ou ao alcance da mão, prontos a causar um desastre – parecem "gatos" malfeitos, só que legalizados.

E sempre que pergunto a alguém "o que achas dos postes de Porto Alegre?", a resposta, invariavelmente é "como assim? normal, ué!" Normal...