25/08/2013 10:20 - Zero Hora - Porto Alegre
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Cada vez mais fios atravessam o horizonte, mas parece até
que ninguém se importa. O olhar urbano já se habituou ao emaranhado que polui a
paisagem. E, quando algum cabo se rompe, fica difícil encontrar o fio da meada.
Neste mês, a Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE)
anunciou o desligamento programado do serviço na Rua Guadalajara para trocar um
poste de madeira por um novo, de concreto. Após uma tarde inteira sem energia,
a luz voltou, mas o telefone caiu.
Pela janela, o aposentado Nataniel de Jesus Santos, 77 anos,
avistou os cabos rompidos. E ali começou a dor de cabeça do aposentado, que,
mesmo carregando Jesus no nome, perdeu a estribeira – a CEEE informa que quem
deve solicitar o conserto é o usuário, que assim precisa gastar o dedo no teclado
e os créditos do celular no contato com a empresa de telefonia.
– Entra aquele menu: "se você quer falar com Deus, disque 1,
se quer falar com o diabo, disque 2, se quer falar com um de nossos atendentes,
disque 8”, e aí volta todo o menu. É de tirar a paciência – reclama Nataniel,
que resolveu pedir ajuda ao Procon.
Se, com o serviço interrompido já é difícil, imagine quem se
atreve a reclamar de um cabo abaixo da altura mínima – aumentando ainda mais a
largura da teia de fios sobre a calçada. A psiquiatra Maria Inês Lobato tentou,
mas a empresa respondeu só ter obrigação de fazer reparos no caso de o sinal
ser interrompido. De fato, não há norma que obrigue a retirada nem mesmo de
fios inativos. Assim, na imensa maioria das vezes, o consumidor encerra o
contrato com a operadora, mas o cabo permanece no local, como um monumento à
falta de regulamentação da paisagem urbana.
– As pessoas acham que isso é só uma questão de estética,
mas o bem-estar que te dá abrir a janela do apartamento e ver a paisagem, em
vez de ver aquele monte de fios, é muito importante – comenta a médica.
Incomodada com o descaso, Maria Inês saiu com a filha
Beatriz, 13 anos, a caminhar e fazer fotos para postar em uma página criada no
Facebook, com apoio dos sobrinhos Antônio Tovo, 30 anos, Mariana Goellner, 30
anos, ambos advogados, e Rafael Marques, 34 anos, arquiteto.
– Enterrar os fios teria impacto inclusive na recuperação da
arquitetura, que ficaria mais valorizada, e seria fundamental para cumprir a
norma de acessibilidade, aumentando o vão livre de circulação, com a retirada
dos postes das calçadas – diz Rafael.
O objetivo do site é dar visibilidade ao problema e forçar
as autoridades a pensarem em políticas que permitam o aterramento nas áreas de
interesse cultural, aproveitando a realização de obras como as dos corredores
de ônibus e das perimetrais.
Em São Paulo, uma iniciativa parecida chegou até o
Ministério Público Federal, que abriu inquérito para apurar por que a cidade
não enterra suas redes. Após uma onda de chuva no verão de 2011, que deixou um
bairro inteiro sem luz por mais de uma semana, o jornalista Leão Serva passou a
postar diariamente no Instagram fotos com a legenda "malditos fios”, que depois
virou hashtag e se popularizou entre seus seguidores. Serva está preparando um
livro de fotos com esse tema, que deve sair em novembro:
– Já tinha publicado um livro de fotos sobre o projeto
Cidade Limpa, que foi quando São Paulo regulou a propaganda em outdoors. Isso
mudou o visual da cidade, e os fios ficaram ainda mais visíveis. Então, as
fotos dos malditos fios viraram um grito diário para que a limpeza da cidade
continue.
É fácil perceber que a maldição dos fios não é exclusividade
paulistana. Mas, curiosamente, a lei que tenta minimizar a poluição visual em
Porto Alegre não contém uma linha sequer sobre a plasticidade da fiação.
O nó que se vê nos
céus começa no setor público
O emaranhado que se vê sobre as calçadas se reproduz no
poder público, a quem caberia o poder de mudar o cenário dos céus urbanos. A
empresa de energia elétrica loca os postes para o cabeamento de operadores de
telecomunicações, mas alega que a decisão de enterrar ou não as redes depende
da administração pública.
– A rede subterrânea tem custo 10 vezes maior, e isso teria
de ser repassado ao consumidor. Nenhuma empresa fará esse investimento. Isso só
ocorrerá se partir da prefeitura, que poderia locar os dutos para as companhias
– sugere o engenheiro do setor de distribuição da CEEE, Rubens Wawrick.
A teia de aparente desinteresse pela questão só aumenta. A
Secretaria de Obras diz que apenas executa o que está no projeto e argumenta
que o planejamento urbano compete à Secretaria de Urbanismo, que, por sua vez,
atribui à Secretaria de Gestão a previsão de investimentos nesta área. Esta,
por sua vez, delega à companhia de energia o poder de decidir sobre o tipo de
rede a ser implantada. E, assim, fecha-se o ciclo, sem que ninguém assuma a
frente da questão.
– Um projeto viário considera desde fatores ambientais até o
tipo de rede, mas as diretrizes da Agência Nacional de Energia Elétrica e da
própria CEEE não avançam para o sentido de enterrar a fiação, o que certamente
representaria um ganho paisagístico imenso para a cidade – diz o engenheiro
Rogério Baú, responsável pelas obras de mobilidade urbana da Capital.
Cidades da Serra enterraram as redes em pontos turísticos,
como a Avenida Borges de Medeiros, no centro de Gramado. No caso de Antônio
Prado, além da questão estética, havia o risco de incêndio pela proximidade da
fiação com o casario de madeira, explica a arquiteta Anna Maria Hennes, que fez
o projeto luminotécnico da obra:
– A viabilização desses projetos passa por uma negociação
ampla, com governo e concessionárias. Contudo, como os investimentos são
elevados, é importante haver critérios de escolha para áreas de maior
relevância.
AÉREO OU SUBTERRÂNEO?
Especialistas apontam vantagens e desvantagens das redes
sobre as calçadas ou abaixo da terra
Custo
O principal limitador para a substituição de redes aéreas
por subterrâneas é o custo: enterrar a fiação custa 10 vezes mais. A solução
para baratear seria um planejamento conjunto entre prefeitura, companhias de
água e esgoto, energia elétrica, gás, telefonia e telecomunicações. Outros
aspectos que encarecem o sistema subterrâneo são a exigência de mão de obra
mais especializada e o tempo de implantação da rede, bem menor nas ligações
aéreas.
Estética
A rede subterrânea tem menor interferência na paisagem,
melhorando o aspecto visual da cidade. Há alternativas de redes aéreas (redes
ecológicas ou compactas), com menor poluição visual.
Clima
Tempestades estão entre as principais causas de interrupção
do fornecimento de energia e de telecomunicações. Os postes são frequentemente
derrubados por vendavais e atingidos por árvores que ficam próximas à rede. Sem
contar acidentes de trânsito, com colisões em postes ou veículos altos que
arrastam a fiação. No caso das redes subterrâneas, esse problema seria anulado.
Distribuição
Não exposta às intempéries, a rede subterrânea sofreria
menos problemas de distribuição em
relação às redes aéreas, ampliando a confiabilidade do serviço.
Manutenção
As redes subterrâneas demandam mais tempo de investigação
para identificar a origem do problema em caso de desabastecimento. Na rede
aérea, o local onde um cabo foi rompido fica visível, agilizando o conserto.
Embora tenha menor frequência de interrupções, o tempo de desabastecimento
tende a ser maior nas redes subterrâneas.
Podas
Em um ano, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam)
recebe 2 mil pedidos para podas de galhos que interferem na rede. O agrônomo
Sérgio Tomasini, diretor da Divisão de Parques, Praças e Jardins da Smam,
reconhece que há dano ao vegetal, mas diz que tem de haver uma harmonização do
equilíbrio ecológico com a manutenção dos serviços. Nos novos plantios, estão
sendo evitadas árvores de grande porte.
Segurança
A rede aérea permite um pouco de sobrecarga, por períodos
curtos, porque o contato com o ambiente resulta no resfriamento natural da
fiação. A sobrecarga ocorre porque a companhia não tem domínio sobre a
quantidade de aparelhos que o usuário conecta na rede ao mesmo tempo. Na rede
subterrânea, isso é perigoso, pois pode levar ao superaquecimento dos
transformadores, resultando em explosões.
Choques
O rompimento de cabos ou mesmo a energização de árvores e postes devido a problemas na rede representa risco à vida. Dados levantados pela Associação Brasileira das Distribuidoras de Energia Elétrica contabilizam 293 mortes por choque em 2012, sendo 32 delas por cabos energizados no solo. O risco de morte por esse tipo de descarga elétrica é anulado com a rede subterrânea.
Entenda o emaranhado
de fios:
CONTRAPONTO
CEEE
Informa que o cliente deve reportar problemas diretamente à
empresa responsável pelo cabo solto, inativo ou abaixo da altura regulamentar.
Em casos de problemas com fios da rede, o cliente pode ligar para 0800 721 2333
ou acessar o atendimento online (www.ceee.com.br).
NET
Informa que realiza um trabalho constante de monitoramento e
manutenção de cabos, identificando e recolhendo materiais não utilizados. Caso
identifique irregularidades, o consumidor pode ligar para o 10621.
GVT
Informou que faz a retirada ou o realinhamento dos fios
quando há cancelamentos. Disse ainda que monitora a rede permanentemente e
mobiliza equipe para efetuar reparos quando é identificada ocorrência de fiação
solta. O contato para solicitar reparo é pelo número 10325.
OI
Até o fechamento da edição, a assessoria de imprensa não
retornou ao pedido feito pela reportagem.
É normal, ué!
Em 2008, decidi ganhar experiência fora do Brasil. Morei e
trabalhei em Milão, na Itália, até 2012.
Uma das coisas que me chamaram a atenção por lá é que não
existem postes para a passagem de fios na rua. Tudo – fiação elétrica, fibra
ótica, telefone, cabos – passa por baixo da terra.
Na volta, uma das coisas que mais me salta aos olhos é não
só a terrível poluição visual causada pelos fios, como o absurdo descaso à
fiação esticada sobre os postes.
O incrível é que isso já faz parte do cotidiano do porto-alegrense.
Pouca gente se dá conta da quantidade inacreditável de fios caindo no meio da
rua ou ao alcance da mão, prontos a causar um desastre – parecem
"gatos" malfeitos, só que legalizados.
E sempre que pergunto a alguém "o que achas dos postes de Porto Alegre?", a resposta, invariavelmente é "como assim? normal, ué!" Normal...