29/06/2013 09:45 - O Globo
O Centro de Controle
Operacional do BRT Transoeste, na Barra da Tijuca: sistema reúne empresas que
já atuam em outros consórcios Fabio Rossi / O Globo
RIO — No já nebuloso sistema de ônibus da cidade do Rio de
Janeiro, surge mais um personagem até então desconhecido. Apesar de quatro
consórcios terem ganhado a licitação para a operação do transporte rodoviário
em 2010, foi criado no ano passado, sem nenhum alarde e sem uma nova licitação,
um quinto conglomerado de empresas para operar todos os BRTs que a prefeitura
planeja implantar na cidade até 2016. O GLOBO chegou ao novo grupo através de
um convênio, de R$ 5,3 milhões, assinado na quinta-feira com a Secretaria de
Segurança para a cessão de PMs de folga para proteger as estações e usuários do
Transoeste, que liga a Barra da Tijuca a Campo Grande e Santa Cruz. Empresários
e a prefeitura dizem que a participação de terceiros foi prevista no edital de
concessão. Mas especialistas alertam que a prática pode gerar distorções e
dúvidas sobre o lucro das empresas, ou até o cálculo da tarifas.
O Consórcio Operacional BRT, como foi batizado, é controlado
pela Jabour e pela Pégaso, que integram o Consórcio Santa Cruz, responsável
pelo transporte de passageiros na Zona Oeste (exceto na Barra e em
Jacarepaguá). Ou seja, as duas empresas, que são sócias, terceirizam os
serviços para si mesmas. O novo grupo implantou e mantém com pessoal próprio um
Centro de Controle Operacional (CCO) com câmeras no Terminal Alvorada, na
Barra. A equipe inclui até um funcionário para monitorar as redes sociais e
identificar qualquer descontentamento com os serviços. Os funcionários podem
até mesmo entrar em contato com as empresas para solicitar reforço de frota ou
alterar intervalos conforme a demanda.
A autonomia chega a tal ponto que o novo grupo contratou a
Algarve, que também integra o consórcio Santa Cruz, para complementar a frota
do Transoeste.
Para a advogada especializada em direito administrativo Sandra
Helena Marques de Santana, a contratação de um quinto consórcio pelas
concessionárias não é ilegal. Mas ela ressalta que cabe nesse caso uma
discussão sobre a moralidade :
— A prática é imoral, porque esse contrato gera despesas
para concessionárias. Representa um gasto que será repassado às planilhas de
custos que servem de referência para calcular o reajuste das tarifas — explicou
Sandra Helena.
O economista Samy Dana, da Fundação Getúlio Vargas de São
Paulo, estranha a criação do novo consórcio. Para ele, é necessária uma
auditoria pesada em cima das contas das empresas.
— Sempre questiono o fato de as empresas de ônibus serem de
capital fechado. Isso dificulta o controle. Neste caso específico, da criação
de mais um grupo, o que me preocupa é que acaba havendo um acúmulo de lucro em
cascata, o que deixa tudo ainda menos transparente.
Por ser terceirizado, o Consórcio BRT não tem que prestar
contas diretamente à prefeitura. Ao saber da existência do grupo pelo GLOBO, o
vereador Paulo Pinheiro (PSOL) se reuniu com o colega Eliomar Coelho, do mesmo
partido, que já adiantou que vai propor que o caso seja um dos alvos da CPI que
começa em agosto:
— É um dado novo. Reafirma e reforça a ideia de que o
processo no Tribunal de Contas do Município não deveria ter sido arquivado.
O consultor do consórcio, Fernando Aurélio, estima que o CCO
tenha custado cerca de R$ 4,5 milhões. O custo mensal das operações chega a R$
2,5 milhões. No orçamento, está a despesa com os PMs, que, até recentemente,
eram contratados pelo Sindicato das Empresas de Ônibus. Pela engenharia
montada, o novo grupo terá no futuro mais sócios para ratear as despesas, na
medida em que forem inaugurados mais corredores de BRTs. Os futuros
participantes serão empresas dos consórcios Transcarioca (Barra e Jacarepaguá)
e Internorte (Zona Norte).
A estimativa da prefeitura é que, do total de 4 milhões de
viagens diárias por ônibus, até dois milhões serão feitos por BRTs futuramente.
O secretário municipal de Transportes, Carlos Roberto Osorio, defende o modelo.
Segundo ele, a integração ajudará a melhorar a qualidade dos serviços prestados
pelas concessionárias.
— O BRT não é propriamente um novo consórcio. Mas um acordo
operacional que aprimora o sistema. Não há nada de errado. Estava previsto no
edital e fomos previamente informados — disse Osorio.
O presidente do Sindicato das Empresas de Ônibus, Lélis
Marcus Teixeira, argumentou que o novo consórcio não visa ao lucro:
— A finalidade do novo consórcio é a parte operacional. Trata-se apenas de uma forma de ratear despesas — explicou Lélis.
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