22/05/2014 08:43 - O Globo
SÃO PAULO - O Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores em
Transporte Rodoviário Urbano de São Paulo (Sindmotoristas) tem uma história
marcada por brigas pelo poder e manchada por suspeitas de corrupção. Nos
últimos 22 anos, 16 dirigentes foram mortos, e outros 18, presos. No mesmo
período, a entidade foi alvo de investigações da Polícia Federal e do
Ministério Público, que apuraram a existência de esquemas de corrupção, a
ligação do sindicato com o crime organizado e o enriquecimento ilícito de
diretores. A última eleição, ocorrida no segundo semestre do ano passado, só
terminou porque contou com a presença de uma escolta policial. Uma confusão
registrada no local terminou com tiroteio e oito feridos.
Os problemas no Sindmotoristas começaram a vir à tona em
2003, quando a diretoria do sindicato foi acusada de receber dinheiro dos donos
das empresas de ônibus para organizar greves. Naquele ano, paralisações em
fevereiro e abril terminaram com mais de cem ônibus destruídos. Embora
parecessem ser movimentos de trabalhadores, os atos eram, segundo denúncia do
Ministério Público, locautes (greves conduzidas pelos próprios empresários) e
tinham como objetivo pressionar a prefeitura a destinar ou aumentar os
subsídios pagos às empresas.
Desvio de dinheiro
investigado
Ao longo das investigações, a Polícia Federal determinou a
prisão de 18 sindicalistas acusados de corrupção. Entre eles estão: Edivaldo
Santiago, então presidente, Isao Hosogi, o Jorginho, e José Valdevan de Jesus
Santos, o Noventa. Nas duas décadas seguintes, os três continuariam controlando
a entidade e se envolvendo em escândalos. No ano passado, no entanto, formaram
dois grupos para disputar as eleições.
Outro grande escândalo envolvendo o Sindmotoristas foi
revelado pelo Ministério Público em 2009. O órgão acusou um grupo de diretores
de montar um esquema de desvio de dinheiro do plano de saúde que renderia aos
envolvidos entre R$ 400 mil e R$ 500 mil por mês. A suspeita era de que fossem
desviados R$ 10 de cada R$ 50 pagos pela prefeitura à entidade como forma de
subsidiar o plano de saúde dos trabalhadores. A investigação não gerou prisões.
Em 2010, dois dirigentes sindicais do Sindmotoristas foram
mortos num período de dois meses: Sérgio Augusto Ramos e José Carlos da Silva.
Ramos chegou a gravar um vídeo no qual dizia que Jorginho, então presidente da
categoria, era o único interessado em sua morte. A casa de Jorginho e de
Noventa foram revistadas pelos investigadores. A apuração apontou a
participação de policiais militares nos crimes.
Noventa foi alvo de outro inquérito. No início de 2010, foi
acusado de usar a cooperativa de perueiros que ele chefiava em Taboão da Serra
para lavar dinheiro do principal grupo criminoso de São Paulo na favela de
Paraisópolis. Em 2006, Noventa foi eleito vereador pelo PV de Taboão da Serra.
Após anos participando do mesmo grupo político de Jorginho, Noventa
e Santiago decidiram montar uma chapa própria para a última eleição do
sindicato, feita no ano passado. Em 16 de julho, a Justiça suspendeu o pleito
depois que oito pessoas ficaram feridas em um tiroteio registrado na sede do
sindicato. Segundo motoristas, a confusão começou porque uma das chapas não
queria permitir a saída das urnas para as garagens.
A votação ocorreu em setembro, com escolta policial. O grupo
de Jorginho, que perdeu o pleito, alega que muitos motoristas não puderam votar
porque seus nomes não estavam em listas distribuídas pelo sindicato.