A diversidade embarca no transporte e pergunta: o transporte de massa brasileiro é herança dos navios negreiros?

19/09/2023 10:00 - ANTP/Diário do Transporte/OTM Editora

Paíque Duques Santarém, antropólogo e doutorando da Universidade de Brasília, debaterá o tema no Arena ANTP 2023

 

Quando se sabe que existem motoristas que não param para pegar passageiros negros, que o transporte é território das revistas policiais conhecidas como baculejos e que há ainda muita gente que evita sentar ao lado de um negro no ônibus, fica muito difícil nào enxergar o racismo como um componente intrínseco do sistema de transporte público brasileiro. Mas 

Paíque Duques Santarém, antropólogo e doutorando da Universidade de Brasília, vai além. Em sua tese, ele discute a ideia de que o nosso sistema de transporte urbano seja um desmembramento do transporte de uma carga preciosa dos tempos coloniais: os corpos negros escravizados.

O racismo sobre ondas se repete sobre trilhos e rodas

Santarém volta no tempo para explicar como o primeiro sistema de mobilidade em massa de pessoas acontece na nossa história com os navios negreiros. Ou seja, com o transporte de seres humanos sendo tratados como carga. E que, por isso mesmo, ele já nasce racista: ”O racismo é um sistema de diferenciação de pessoas que interfere em todas as instituições, em todos os espaços da sociedade. E não ficaria de fora, então, da mobilidade”.

Já no século XIX, quando o transporte urbano de massa começa a ser delineado por aqui, ele traz esta carga pesada escravagista e à mistura aos preceitos higienistas e sanitaristas que, por sua vez, andam de braços dados com a eugenia. Nessa altura, usando a justificativa da saúde pública, a ordem é limpar o centro que, não por coincidência, era na época ocupado essencialmente por negros e negras que ali vendiam comida, ofereciam serviços, executavam seus trabalhos e até moravam, já que os nobres e os representantes da nossa burguesia comercial e industrial preferia se acomodar em bairros mais “limpos” e distantes da zona central, das praias e portos.

Com isso, afasta-se o negro do epicentro da atividade econômica, levando-o para uma situação de dependência total do transporte público que, na outra ponta, é sempre gerido, pensado e economicamente útil para e pelos corpos brancos.

Passado recente, presente e espaço para se pensar o futuro

No século seguinte, o de número vinte, as distâncias se aprofundam ainda mais até chegarmos ao IPK -- o índice de passageiros por quilômetro--, que é um dos principais índicadores de produtividade do setor de transporte. Os manuais do setor dizem que IPK bom não pode ser baixo ou o preço da passagem vai às alturas. Mas, para Santarém, debaixo dessa conta se esconde outra revalação: “se quanto mais lotado estiver o ônibus, mais lucrativo é o negócio, isso só faz repetir a lógica de se tratar o passageiro como carga”.

O ponto de vista de Paíque Santarém pode não ser compartilhado por muitos dos players do setor. Mas ninguém dúvida que é preciso incluir uma maior diversidade de olhares, vozes e vivências ao se pensar o transporte coletivo de agora e do futuro. E é justamente isso que a Arena ANTP faz ao definir tópicos tão variados para o evento e colocar pessoas com perspectivas diferentes para dialogar democraticamente sob o mesmo teto nos dias 24, 25 e 26 de outubro no Transamérica Expo Center na cidade de São Paulo O próprio Santarém – que é um dos organizadores da coletânea de reflexões publicadas em 2021 no livro Mobilidade Antiracista estará presente no evento, mediando a sessão Raça e gênero na mobilidade urbana que está marcada para às 14 horas da quarta-feira, dia 25 de outubro. 

Para ver a programação completa e garantir seu ingresso gratuito, basta visitar www.arenaantp.com.br