21/03/2026 08:00 - Diário do Transporte
Relatórios da ANTP indicam queda contínua da participação e mudança no comportamento de deslocamento
ALEXANDRE PELEGI
Os dados mais recentes do Sistema de Informações da Mobilidade Urbana (SIMOB), da ANTP, referentes a 2023 e 2024, não mostram apenas uma recuperação pós-pandemia. Revelam algo mais profundo: a consolidação de um novo padrão de mobilidade no Brasil — menos coletivo, mais individual e estruturalmente mais ineficiente.
Depois de anos sem publicação, o retorno do SIMOB permite enxergar com clareza o tamanho da ruptura. E ela não é conjuntural. É estrutural.
O SIMOB analisou 533 cidades com mais de 60 mil habitantes, que perfazem 65% da população brasileira. Os resultados representam estimativas consolidadas da mobilidade urbana nas principais cidades do país, permitindo análises comparativas e evolução histórica dos indicadores.(veja ao final do texto mais sobre os dados e metodologia)
A pandemia não foi um desvio — foi uma inflexão
O primeiro dado-chave está na comparação com 2019: o total de viagens caiu cerca de 16%, segundo o SIMOB 2023. Não se trata de uma oscilação cíclica, mas de uma mudança no comportamento da sociedade.
O mais relevante é a assimetria dessa queda:
Ou seja, a mobilidade não encolheu de forma homogênea — ela se reorganizou.
A pandemia acelerou tendências já latentes: digitalização, trabalho híbrido e maior autonomia individual nos deslocamentos.
2024 confirma: o sistema não volta ao que era
Os dados de 2024 reforçam essa leitura. Há leve crescimento no número total de viagens (+1,3%), chegando a 57,8 bilhões anuais, mas sem alterar o quadro estrutural .
O que cresce não é o sistema coletivo — é o individual:
A mensagem é clara: a retomada da mobilidade está sendo capturada pelo transporte privado.
O colapso silencioso do transporte coletivo
Talvez o dado mais emblemático dos relatórios seja a mudança na divisão modal.
Em poucos anos:
Isso representa uma mudança estrutural no papel do transporte público nas cidades brasileiras.
O coletivo deixa de ser o eixo organizador da mobilidade e passa a ocupar uma posição secundária — especialmente fora dos grandes centros.
E há um agravante: a tendência não estabilizou. Ela continua.
Um sistema mais ineficiente — em todos os sentidos
Os relatórios mostram que o novo padrão é mais caro, mais lento e mais intensivo em energia.
Alguns indicadores sintetizam essa deterioração:
Esse desequilíbrio revela duas distorções:
Ou seja, o sistema piora simultaneamente do ponto de vista do usuário e da sociedade.
A armadilha do automóvel se consolida
Outro ponto central é o avanço da motorização:
E mais importante do que o volume é o papel estrutural que o automóvel assume:
Isso indica que o automóvel não é apenas complementar — ele volta a ser dominante.
Mobilidade menor, mais desigual e menos previsível
O índice de mobilidade (viagens por habitante/dia) praticamente não cresce:
Isso sugere que:
O resultado é uma mobilidade mais fragmentada, menos previsível e mais difícil de planejar.
O maior problema: estamos planejando com base no passado
Talvez o alerta mais importante do SIMOB não esteja nos números, mas na metodologia.
Os relatórios reconhecem que:
Ou seja, o Brasil está tomando decisões sobre mobilidade com base em um mundo que já não existe.
O que os dados indicam para o futuro
A leitura conjunta de 2023 e 2024 aponta para três cenários possíveis:
Sem intervenção, a tendência é de redução contínua de participação e relevância.
Motocicletas e automóveis tendem a capturar a demanda residual.
O modelo atual é insustentável no médio prazo.
Conclusão
Os relatórios do SIMOB não mostram uma crise passageira — mostram uma mudança de paradigma.
O transporte coletivo deixou de ser o organizador central da mobilidade urbana brasileira. E, no seu lugar, emerge um sistema mais individualizado, mais desigual e menos eficiente.
O desafio agora não é recuperar a demanda perdida, mas redefinir o papel do transporte público em um cenário onde ele já não é mais dominante.
Sem isso, o Brasil corre o risco de consolidar um modelo de mobilidade incompatível com suas cidades — e com seu futuro.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes
Os relatórios do Sistema de Informações da Mobilidade Urbana (SIMOB), da ANTP, utilizam uma base ampla e representativa das cidades brasileiras.
Dimensão da amostra:
Cobertura populacional:
Estrutura de análise:
Os dados são organizados por porte de município:
Metodologia:
O SIMOB utiliza modelos baseados em pesquisas Origem-Destino e variáveis socioeconômicas, com ajustes recentes para refletir as mudanças nos padrões de deslocamento após a pandemia.
Confira os relatórios da série, visitando a página do SIMOB, ou vá direto aos respectivos anos aqui: 2023 e 2024.