Congestionamentos nas grandes cidades causam prejuízos de até 2% do PIB brasileiro. Saiba por quê

05/11/2025 17:00 - Estadão Mobilidade

Quem vive em grandes metrópoles já se acostumou com congestionamentos, deslocamentos casa-trabalho que, dependendo da situação – como condição metereológica, acidentes, manifestações, entre outras – podem até levar o dobro do tempo usual para serem percorridos. E esse desafio diário não poupa ninguém: ele atinge usuários de transporte público e de veículos particulares.

Os custos da falta de mobilidade urbana, ou da ‘imobilidade urbana’ são altos, mas difíceis de mensurar. Mas suas consequências são facilmente percebidas pela população: essa ineficiência rouba tempo, produtividade e qualidade de vida e, para as cidades, se traduz em locais menos inteligentes e inclusivos e mais poluídos.

“Existem vários estudos para monetizar a falta de mobilidade urbana nas principais metrópoles brasileiras, alguns citam prejuízos de R$ 200 bilhões anuais, outros falam em até 2% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Mas são números que dependem muito do critério da amostra e da sua metodologia”, explica Marcus Quintella, diretor da FGV Transportes.

Congestionamentos: mais de um mês improdutivo por ano

De acordo com Quintella, mesmo sem um consenso sobre o valor, contudo, os prejuízos são enormes. Ele explica que nas regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro já existem estudos que mostram que as pessoas gastam, em média, entre 1h30 e 2h30 em deslocamentos diários e algumas levam esse tempor para cada trecho, chegando a 5 horas por dia dentro do meio de transporte. “Isso equivale a mais de um mês por ano em horas ‘roubadas’, que poderiam ser produtivas”, afirma.

O especialista chama atenção também para o impacto na qualidade de vida das pessoas. “Esse tempo perdido poderia ser usado para o trabalho, para estudar, para conviver com a família, para descanso e lazer. Então, esse problema afeta tanto a produtividade quanto a saúde física e mental das pessoas”, diz.

Transporte público de qualidade

De acordo com Luiz Carlos Nespoli, superintendente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), entidade que se debruça sobre e esse tema e possui vários estudos nesse sentido, é fundamental levar em conta que não existe uma solução física, como interferências nas vias como túneis e viadutos, entre outros, sem que se promova mais congestionamento.

“Saíamos de 1 automóvel para cada 9 habitantes no Brasil, no início da década de 1990, para 1 automóvel para cada 2 habitantes em 2025”, diz. Nespoli explica que mesmo com os investimentos na ampliação da infraestrutura viária ao longo de anos – que, de acordo com ele, foram 4 vezes maiores que os feitos na infraestrutura para transporte público – eles não têm se mostrado suficientes.

“Não é possível absorver, com a infraestrutura existente, essa quantidade de carros sem provocar lentidão e congestionamento. Tampouco é possível ampliar esse infraestrutura”, diz Nespoli.

Para o superintendente, para reverter essa situação é preciso priorizar os investimentos no transporte público. “A velocidade média de ônibus circulando em meio ao tráfego geral é de 14 km/h, enquanto a do metrô é 32 a 34 km/h. Em corredores de BRT [exclusivos para ônibus] a velocidade média chega entre 22 a 24 km/h. Este aumento, segundo estudos da ANTP, já reduziria o custo do transporte público em 16% na capital paulista”, declara.

Para Quintella, o foco do poder público deveria ser uma combinação de modais. “Faltam investimentos consistentes em transporte público de alta capacidade, que é metrô e o trem e, em paralelo, investimentos em corredores de média capacidade, que são os BRTs, VLTs e monotrilhos. E todos eles precisam estar integrados, de forma física e tarifária”, lembra.

Congestionamentos geram prejuízo de R$ 10 milhões por dia em SP

Um estudo publicado em 2023 pela FGV Cidades para o Banco Mundial calculou o atraso nos congestionamentos na capital paulista, considerando veículos particulares e transporte público (ônibus).

De acordo com Ciro Biderman, professor e diretor do FGV Cidades, o estudo indica que o congestionamento reduz o tempo de deslocamento dos outros automóveis em 1 milhão de horas por dia.

“Se somarmos o tempo perdido por cada indivíduo que se desloca de carro devido ao congestionamento ao longo de um dia útil, teríamos um total de 1 milhão de horas, ou 999 mil horas, para ser mais preciso”, explica Biderman. “Fazemos essa conta comparando o tempo que efetivamente levam para se deslocar com o que levariam se não houvesse congestionamento.”

O estudo revela, também, que o efeito sobre quem se desloca de ônibus soma 1,2 milhão de horas – ou exatas 1.152 mil horas. “É o resultado da soma do tempo perdido por cada um dos usuários de ônibus, da mesma forma que contabilizamos para quem utiliza carros.”

Cálculo do prejuízo

O professor explica que uma estimativa da perda de produtividade comum na literatura é feita multiplicando o número de horas ‘perdidas’ por metade do salário do indivíduo. “Assim, chegamos em um custo de R$ 6,6 milhões por dia para os usuários de carro e de R$ 3,9 milhões por dia para os usuários de ônibus, visto que os salários dos que utilizam ônibus é mais baixo do que os usuários de carro, levando em conta valores de 2017”, diz.

Para o professor, se parte dos usuários dos carros migrassem para o transporte público já melhoraria bastante. “Com 10% menos carros em circulação, o trânsito já despencaria. Mesmo que fosse necessário aumentar o número de ônibus”, diz.

Investimentos em vias segregadas, corredores e BRTs são oportunidades de melhorias. “Porque isso garantem frequência e precisão de saber que você levará, digamos, entre 25 e 35 minutos no deslocamento e não entre 30 minutos e uma hora. Essa precisão é muito importante para o usuário tomar a decisão de se deslocar ou ão de transporte público”, finaliza.